Zica é Zica…

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Aí você acorda, fazer o quê, não tem jeito! O pior é que aqueles “cinco minutinhos” que sempre pedíamos pra nossa mãe quando, maldosamente ela nos acordava para ir à escola, nem dá mais para reivindicar. Que decepção seria termos que falar para nós mesmos que não dá, que temos que levantar, que não há chances de rolar esses “cinco minutinhos”, por que assim é a vida, a gente passa a infância sendo dominados pelos pais, pra depois crescer, ir morar sozinho, achando que encontramos a tal da independência, quando na verdade apenas trocamos as ordens dos pais pelas ordens de algum desconhecido, mais conhecido por aí a fora como; “patrão”!
Aí enfim você levanta e, depois de 15 minutos fazendo tudo de olhos fechados, enfim consegue abrir os olhos, para no mesmo instante se arrepender, por que começa aquela velha briga com o espelho! A briga a qual me refiro, é aquela em que frases do tipo “isso não estava aqui ontem” ou “cadê aquilo que estava aqui?”, surgem muito, e nesse processo de autocrítica, autoflagelação, procuras intensas, funilaria e alinhamentos corporais indispensáveis, duas horas de um tempo que poderia ser mais bem aproveitado, se vai!
Existem coisas na vida, as quais nunca nos acostumaremos, por exemplo, a pessoa pode viver duzentos anos que, no seu último dia de vida ela ainda não entenderá o porquê de dormir parecendo o Brad Pitt, e acordar parecendo o Tiririca! Limpar a casa todo dia, tudo bem, lavar roupa todo dia, beleza, lavar e secar a louça do almoço e do jantar, sem problemas, mas ter que pentear o cabelo todo dia é muita sacanagem!
E isso é pra nos homens que conseguimos nos virar com um pente e um pote de gel, nem quero imaginar como é para uma mulher que tem que lavar um cabelo comprido, secar com secador, usar três tipos de shampoo, três tipos de condicionador, cremes de hidratação, óleos para reparar as pontas, fazer escova, fazer chapinha, pra só depois abrir a janela e perceber que está chovendo!
Depois de todo esse processo de diariamente se reconstruir, pronto, inteiro para mais um dia de luta, que começa geralmente no ponto de ônibus, já que o carro está na oficina, você olha para o ponto e tenta memorizar a cara de todas as trinta pessoas, pessoas essas que possivelmente te darão o maior ato de contato físico durante todo o dia, pode não ser um contato afetuoso, mas não deixa de ser contato físico. E para piorar, o ônibus pára no ponto, já com umas cinqüenta pessoas dentro, para receber mais essas trinta! Aquela roupa que você gastou trinta minutos passando, já era, aquele perfume caríssimo que você resolveu usar, já não tem o mesmo cheiro de antes, mãos e “partes” te violam todo o corpo, e o motorista é bem lerdo, só pra prolongar toda a tortura!
Depois de eternos quarenta minutos, enfim você desce do ônibus, mas quem dera fosse por ter chegado ao destino, mas sim pra pegar o trem… Trem, ah trem! Ninguém se toca dentro de um ônibus por que quer, mas num trem é diferente! Você entra num trem paulista, e no meio da multidão, no esfrega-esfrega, você sente, conhece, partes corporais que você jamais suspeitava da existência, chega ao ponto de anotar tal fato, pra quando chegar em casa não esquecer de verificar se também tem tal parte corporal! Trem, ah trem! Meio de transporte que já parte do início cheio demais, e a cada estação entram cem pessoas para cada dez que descem! Trem, ah trem! Só você pra superar a obscenidade de um baile funk com todo seu contato físico, com todo seu calor humano, com todas as mãos e partes, e mais mãos e mais partes!
Depois de uma viagem longa e inesquecível, em que, pra sair você precisou de ajuda divina, mais ajuda do que pra entrar, dá até vontade de olhar pra trás e gritar: “eu sei galera que essa orgia ta boa, mas eu tenho que desembarcar nessa estação pra trabalhar!”… Enfim você chega ao seu destino, o lugar onde você deixa seu suor (fora o trem e o ônibus), o lugar onde você planta a semente do seu destino pra colher o sabor do “pão nosso de cada dia”, o lugar onde às vezes você passa mais tempo do que em sua própria casa, o lugar onde está a pessoa que te dá ordens que antes apenas sua mãe dava, o lugar onde fica a recepcionista que te olha e diz: ”o que está fazendo aqui, hoje não é a sua folga?”.

Gill Nascimento

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2 Comentários

  1. Very nice post,”To Get our daily bread.” Contentment is a treasure.Jalal

    Curtido por 1 pessoa

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