Muito antigamente…

Muito antigamente eu não tinha imaginação, não tinha pesadelos, muito menos sonhos, não tinha ambições nem almejos, vivia apenas a vida como ela era, sem me surpreender, sem esperar o inesperado, não era feliz em demasia, mas não tinha do que reclamar.
Num certo tempo veio a crise, procurei não me preocupar, mas a situação se complicou, apertou mesmo, tive que aprender a acreditar no que eu não via, para ter fé e esperança de que tudo ia melhorar, e melhorou, pude concluir então que a fé e a esperança são sentimentos bons, que proporcionam um alívio mental, e propulsionam a situação a melhorar.
Um pouco menos do que muito antigamente, eu ainda não tinha muita imaginação, apenas o bastante para acreditar em um ser superior que eu não podia ver, mas que muito me ajudava devido a minha fé e esperança, ainda não tinha sonhos, nem pesadelos, nem sabia o que eram, também não tinha almejos nem ambições, não era exageradamente feliz, mas estava tudo bem.
Num outro certo tempo a crise desapareceu da minha vida, veio enfim a bonança, sem saber por que, comecei a imaginar enquanto dormia que a crise iria voltar a apertar, e que dessa vez minha fé e esperança não seriam o bastante, descobri então o que eram pesadelos, acordava a noite suado, ofegante e assustado, como se o pesadelo estivesse realmente acontecendo. Foi assim que descobri os calmantes ultra-relaxantes.
Menos que muito antigamente, eu até já tinha um pouco de imaginação, sabia o que era pesadelo, fé e esperança, não tinha sonhos, ambições ou almejos, não era a pessoa mais feliz do mundo, mais ia empurrando o cotidiano à frente.
Num certo tempo errado, a crise me encontrou novamente, minha imaginação falhava por causa dos calmantes, tive que apertar o cinto devido a situação, na verdade passei a usar o relógio de pulso na cintura, a coisa estava preta. Sem imaginação, sem fé, sem esperança, ao menos não tinha pesadelos, numa noite enquanto dormia, imaginei que tudo tinha passado, a crise, o relógio havia voltado para o meu pulso, acordei e descobri o que eram sonhos. Recuperei minha fé e esperança, e como era o esperado, tudo melhorou.
Já não mais a muito tempo atrás, eu possuía uma imaginação fértil, tinha muitos sonhos, de vez em quando alguns pesadelos, possuía uma fé inabalável e uma esperança admirável, ainda não tinha ambições nem almejos, mas andava tudo bem, não havia encontrado a plena felicidade, mas já sonhava com ela.
Em uma hora propícia, há um tempo atrás, veio a era das vacas gordas, a bonança estava de volta, usando minha fé e esperança, estava conseguindo realizar muitos sonhos, mas era pouco, eu queria muito mais, o céu era o limite para mim, descobri então a ambição em exagero, eu queria tudo que não tinha, mesmo estando bem até mesmo financeiramente, isso não podia dar certo.
Há pouco tempo atrás, imaginação a mil, sonhos, ambições, pesadelos (só de vez em quando), fé e muita esperança. Felicidade? Nem tanto. Estava contente!
Não podia ser em pior hora para a crise voltar, e com toda a força!
Meus sonhos desmoronaram, se desencadeou um verdadeiro terremoto em minha fé e esperança, minhas ambições de nada adiantavam, os pesadelos também voltaram, os pesadelos e com eles os calmantes, imaginação zero, enquanto a vida de todo mundo à minha volta melhorava a minha só ia de mal a pior. Comecei a querer o que os outros tinham, descobri o que era almejar e junto descobri o que era inveja, as coisas não podiam piorar.
Parece que foi ontem, que precisei vender bens, fazer empréstimos, trabalhar dobrado para sair da crise, hoje não sonho mais por que não quero, não uso minha imaginação por que ela é perigosa, repeli as ambições por que não quero tê-las, não almejo mais por que odiei sentir inveja. Voltei ao início de tudo, e estou bem mais feliz assim, até a crise votar.
Tudo está praticamente igual à muito antigamente, a não ser por eu ainda manter a minha fé e esperança, a por ainda ter pesadelos, e por ter pesadelos me mantenho praticamente dopado de calmantes, anestesiando assim a minha mente e imaginação, fazendo dessa maneira eu escrever vários textos sem noção, como este!

MORAL DA HISTÓRIA: Na crise ou na bonança podemos perder tudo, menos a nossa fé, e que nunca devemos abocanhar mais do que podemos engolir, pois a vida é como uma sequência de morros, descer é fácil, difícil é subir quando se está gordo demais!

Gill Nascimento

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1 comentário

  1. Registos Digitais

     /  6 de julho de 2015

    Republicou isso em Registos Digitais.

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