Os conflitos do tempo…

Todos nós temos uma época em nossas vidas que marcou, que a gente simplesmente amava, que lembramos como se tivesse acontecido ontem, mas sentimos saudade como se tivesse ocorrido em outra encarnação.
Eu lembro como se fosse ontem das minhas viagens de 22 horas de ônibus, quando ainda criança, nas férias da escola, para a casa dos meus avós, numa cidadezinha de 17 mil habitantes no interior de Minas Gerais. Eu amava muito aquilo, pra uma criança nascida e crescida na cidade de São Paulo, o cheiro do verde no ar e a cor do verde à toda volta, era um verdadeiro deslumbre.
Lembro, como se fosse ontem, como sentia o dia tão pequeno quando estava nessa cidadezinha, como deitava para dormir louco para que a manhã seguinte chegasse logo. Como me lambuzava comendo mangas e goiabas direto na árvore. Como perdia a noção do tempo embrenhado na mata caçando passarinho com um estilingue. Como adorava ficar na beira do rio com meu tio e meu avô, pescando o jantar. Como adotava o sotaque com menos de 5 dias que estava lá.
Lembro como amava montar no lombo de um jumento que meu avô tinha, e ficava dando voltas no quarteirão, sendo convidado por cada senhorinha simpática, de cada casa, para almoçar e depois tomar aquele cafézinho fresquinho. Lembro como gostava de ver minha vózinha cozinhar no fogão à lenha, como a comida era mais cheirosa, como os sabores eram muito mais saborosos, e só de lembrar já fico com água no boca. Lembro de como odiava qualquer tipo de legume, mas amava os que a minha avó fazia, tinha um toque especial que deixava os legumes com sabor de comida legal, era assim que eu imaginava na época.
Lembro como eu ficava bobo com os animais silvestres, calangos, siriemas, codornas, preás, macaquinhos prego, entre outros.
Resumindo, era mágico.
Mas de tudo que lembro, o que sinto mais falta é daqueles olhos que eu tinha, que enxergava tudo com espanto e novidade, que adorava ver aquelas coisas e não enjoava, que tinha a inocência de não entender como as coisas realmente eram, por que é muito ruim crescer e ter a visão de adulto sobre tudo aquilo que te encantou na sua infância.
Cresci, e aquele amor por viajar de ônibus sentindo o vento no rosto e admirando cada paisagem pela qual eu passava, deu lugar à uma impaciência que não atura nem 2 horas dentro de um avião. Todo aquele verde no ar e na paisagem é lindo, apenas nos dois, no máximo três primeiros dias, após ganha o carinhoso apelido de fim do mundo.
Cresci, e hoje quando como mais de uma manga tirada direto do pé, meu estômago sente a falta dos agrotóxicos e eu acabo passando mal de dor de barriga. Não caço mais porque sei que poderia arrumar problemas com o IBAMA, e até gosto de pescar, mas só se for coberto por 3 quilos de repelente. E quando começo a entender o que os habitantes falam com todo seu carregado sotaque é  porque já está na hora de voltar pra casa.
Cresci, e agora não aguento ficar 2 minutos próximo de um jumento, pois lembro que é um animal que tende a ter problemas de flatulência. Aquelas senhorinhas que me convidavam pra almoçar, que eu achava tão simpáticas, hoje sei que não passam de fofoqueiras que buscam informações com as crianças e suas línguas soltas. Ainda amo comida feita no fogão a lenha, ainda dá água na boca quando lembro, mas hoje em dia minha vózinha não está mais aqui pra fazer pra mim, nem pra eu ficar admirando enquanto ela cozinha, então dispenso.
Cresci, e hoje em dia aqueles animais silvestres que eu via com admiração, tenho consciência de que aqui são raros, mas que lá são até pragas, por causa da quantidade.
Eu cresci, e esse é o único grande problema…
Cresci, e ainda amo muito fazer essa viagem, curtir minha família por lá, mas de maneiras totalmente diferentes, muito menos mágicas. De todas as saudades, a da infância é a que mais dói!

Abraços…

Gill Nascimento

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5 Comentários

  1. Seja para o passado ou futuro, a melhor viagem que fazemos é a no tempo.

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  2. Lorraine

     /  19 de julho de 2015

    ” Lembro como gostava de ver minha vôzinha cozinhar no fogão à lenha, como a comida era mais cheirosa, […] já fico com água na boca . Sdds *-*

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  3. Jane Oliveira

     /  20 de julho de 2015

    Realmente dói saber que o tempo mágico fica no passado e o que nos restam são essas lembranças de saudades, de querer ver tudo novamente com os olhos brilhantes de criança. O saudades doce RS bjos

    Curtido por 1 pessoa

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