Suavizando as coisas…

Sabe, sou um amante da sinceridade, um admirador do termo “não ter papas na língua”, um homem que gosta de quem fala a verdade mesmo que ela doa tanto quanto bater o dedinho mindinho do pé em algum móvel. Ainda assim, sendo essa pessoa que acabo de citar, devo confessar que existem situações em que até mesmo eu, dono as vezes de um enorme humor negro, acho que seria necessário o emprego de um pouco de eufemismo pra suavizar o baque de uma notícia.
Quando minha mente, extremamente fértil, começa a pensar nesse assunto, fico imaginando que deveria ser feito uma pesquisa bem apurada, pra saber qual a média de fatalidades, por ano, das pessoas que são vítimas de quem não sabe dar uma notícia. Numa pesquisa ainda mais apurada, gostaria de saber quantas pessoas eu posso ter matado e quem são os maiores assassinos do mundo nesses tipo de caso.
Comecei pensar nisso um dia desses, quando meu irmão já impaciente com minha mãe, que enrolava para dar a notícia do falecimento de um amigo da família para uma tia minha meio sensível, tomou o telefone e se encarregou da missão:
“- Oi tia, tudo bem? Sabe de quem eu tava lembrando um dia desses? Do Juraci. Lembrando de quando ele ia lá em casa, de como era doido, brincava no meio dos buracos de terra comigo e os primos quando a gente era criança. E por falar em terra, ele morreu e vai ser enterrado amanhã.”
Não estava no viva voz, ainda assim consegui escutar o barulho da queda dela do outro lado da linha, mas fiquem tranquilos, não foi nada grave, ela só desmaiou e bateu a cabeça mesmo.
Comentando com minha namorada sobre esse assunto, enquanto escrevia esse texto, ela disse que na opinião dela, as pessoas tinham que ser mais políticas na hora de dar uma notícia. Não sei como ela quis empregar a palavra POLÍTICA nesse caso, mas pelo meu ver, se encaixou perfeitamente. Não existe ninguém melhor do que um político para dar notícias ruins.
Quando você liga sua TV e vê alguém de colarinho branco dizendo que tal taxa de juros foi aumentada, para que o Governo possa fazer investimentos em tais áreas, que futuramente estarão beneficiando você de tais maneiras, é  um grande exemplo, porque na verdade o político está dizendo que você vai ter menos dinheiro pra gastar, com algo que não sejam dívidas, no fim do mês, e que essa melhoria que eles vão fazer, provavelmente você nem vai estar vivo, quando concluídas forem, para poder desfrutar desse investimento involuntário que fez.
Mas a verdade é que os políticos fazem justamente o contrário, eles enrolam e enfeitam pra falar o que deveriam falar da maneira mais simples possível.
Imaginem se meu irmão fosse um político, e tivesse tomado o celular da minha mãe pra dar a notícia pra minha tia. Seria mais ou menos assim:
“- Querida e estimada tia, bom dia. Hoje estava lembrando, e que boas lembranças eram, de tempos que não podem mais voltar. Lembrando de meus primos e eu, de como éramos felizes quando brincávamos juntos e como nossa alegria contagiava até mesmo as visitas. Lembrei ao acaso do amigo Juraci, que aliás, ERA um ótimo amigo. Certa vez brincou conosco de amarelinha, e aproveitando o ensejo, gostaria de dizer para a senhora que, assim como na brincadeira da amarelinha ele pisou no céu, hoje ele pisou também, mas é certo que um dia todos pisaremos e todos nós nos encontraremos depois disso, posso garantir.”
Claro que seria um discurso muito maior e que no final minha tia não entenderia nada, afinal, teria sido feito por um político. Mas ao menos ela não teria desmaiado e batido com a cabeça no braço do sofá.

Abraços

Gill Nascimento

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7 Comentários

  1. Caroline Gurgel - Histórias de Papel

     /  26 de julho de 2015

    Estou adorando seus textos. São muito bons! Parabéns!

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  2. Excelente seu texto! Concordo com ele.
    Também sou totalmente a favor da verdade, mas há formas e formas de dizer a mesma coisa.
    E sou da opinião que, se pensar em dizer algo que não acrescente para mim ou para a pessoa que for escutar, não devo dizer. Prefiro economizar nas palavras.
    Um ótimo domingo!

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  3. concordo, há momentos que ficamos sem saber como falar, mas sempre terá que ser baseado na verdade e sobre os políticos, melhor nem comentar..rs

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  4. Gostei do texto. Existe a verdade e uma gama de formas para expressa-las. Sinceridade não é desculpa para agir com grosserias.
    Bjs

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  5. Também eu sou totalmente a favor da verdade. Tanto que frequentemente me deparo com problemas por não saber mentir ou ocultar o que penso.
    Contudo, Gil, em relação à tua tia, pegaste um pouco pesado. Algo que só a idade nos ensina. Verdade seja dita. Antes do meu pai falecer de um cruel e duro cancro, a minha perspetiva perante a reação/luto face à morte era bastante diferente. Mas o importante é estarmos abertos à mudança, a dar a mão.
    Grande abraço e continua a escrever 😉

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  6. ótimo texto!
    também sou super a favor da verdade, e apesar de teu irmão ter sido meio brusco, concordo com ele que algumas coisas devem ser faladas logo, sem rodeios, contudo, depende muito da situação né hehe.. mas ok, sua namorada expressou-se bem em “politicagem” da coisa hahah
    Beijo, Lê.

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