O Culpado – A Saga de Euzébio

Eu já conheci pessoas azaradas, mas como o Euzébio nunca, esse cara era fora de série, ele não era azarado em tudo, ele era mais do tipo que se ficasse parado era suspeito, e se corresse era fugitivo. Ele sempre levava a culpa por tudo, não existia álibi nem testemunha que salvasse o Euzébio.
Euzébio era órfão, foi criado por um casal de tios, esse casal tinha um filho um ano mais novo que Euzébio, o moleque na época era o cão em forma de gente chupando limão sem sal e de cabeça pra baixo, o moleque era feio e atentado.
Uma vez esse moleque fez careta brincando com os cachorros da família, dois Pitt Bulls, esses cachorros, é claro, se assustaram com a careta do moleque que por si só já era muito assustador, e avançaram para atacar ele em legítima defesa, vendo o primo correndo perigo, Euzébio se armou de uma tora de madeira e acertou nos cachorros que mudaram de vítima, se defendendo e apanhando como um condenado e levando mordidas em todo o corpo, depois de muita luta Euzébio conseguiu derrubar os cachorros, um morreu e o outro quase, o Euzébio foi expulso de casa pelos tios aos 11 anos por causa disso, os tios amavam os cachorros. O primo peste nem esboçou abrir a boca para ajudá-lo.
Adolescente, sem casa, morando num orfanato, Euzébio cresceu muito revoltado, porém seu azar não lhe abria espaço para sua revolta.
Aos 16 anos no orfanato, numa bela noite de domingo, Euzébio esquentava um chá para tomar na cozinha quando o alarme de incêndio do prédio tocou, desesperado correu para fora e  viu todo o segundo andar do prédio tomado pelas chamas. Após cerca de 30 minutos as chamas foram controladas, Euzébio que como um verdadeiro herói, se meteu no meio do fogo, ajudou a apagar, resgatou de dentro do prédio as crianças menores, só sossegou quando viu que estava tudo bem com todos, ao tirar as roupas chamuscadas pelo fogo, deixou cair o isqueiro que usou para acender o fogão na hora de fazer o chá, e o Diretor do orfanato, que não ia com a sua cara viu. Foi acusado de começar o incêndio, e acabou preso pela polícia, como era menor de idade, foi parar no juizado de menores, logo após na FEBEM, hoje em dia chamada de Fundação Casa.
Aos 18 foi solto. Terminou seus estudos e entrou para uma faculdade pública, pois apesar de tudo era estudioso e muito inteligente. Morou em uma república de estudantes de administração, se formou e arrumou um bom emprego. Comprou uma casinha aconchegante, um carro, e podia muito bem se sustentar. Estava indo tudo muito bem, Euzébio pensava enfim estar livre do azar que sempre carregou consigo, mas se tem um ditado que se pode aplicar na vida, é o de que tudo que é bom dura pouco.
Euzébio conheceu uma mulher, linda, gostava das mesmas coisas que ele, que estava afim de relacionamento sério, namoraram, noivaram e casaram. Foi então que pela primeira vez na história, a bela borboleta voltou a ser lagarta, e de fogo, mas especificamente com as chamas do inferno, inferno que Euzébio conheceu. Mesmo assim a mistura de surucucu e onça pintada com TPM acabou engravidando. Foi o filho nascer e ela se separar, levando consigo a casa, o carro, e uma pensão bem generosa imposta pelo Juiz.
E como todo recém separado, Euzébio acabou misturando seus problemas pessoais com o trabalho, e acabou demitido. E como é de se esperar, acabou preso por falta de pagamento da pensão do filho.
Já na cadeia foi acusado de idealizador de um túnel enorme que levou a fuga de mais da metade dos presos, onde ele não estava incluído, mesmo assim levou a culpa. Teve sua pena quase que triplicada, mas aceitou numa boa.
Teve em sua cela um preso de 2 metros de altura, 120 kilos, e um físico amedontrador, e o pior de tudo, que sentiu uma enorme atração física por ele.
Depois de muito tempo, muito tempo mesmo, Euzébio saiu da prisão, agora formado no mundo da malandragem, e do crime também (porém esse diploma ele revogou), com um amplo conhecimento da vida e uma dupla orientação sexual, Euzébio volta as ruas decidido a ser uma nova pessoa, dona de seu destino, e que desconhece as palavras azar e culpa.
Porém, Euzébio agora com 40 anos, depois de ter sido acusado de várias coisas que não fez na cadeia, ter sua pena várias vezes aumentada, não era mais aceito na sociedade.
Agora Euzébio tinha que se conformar com o que o destino o reservou, com uma ficha extensa e suja, o jeito era tentar ir seguindo sua vida de ex presidiário, companheiro de malandro, tentando se virar no mundo enquanto levava ‘bandeco’ pro sessentão sarado e tarado aos fins de semana, na prisão.

Gill Nascimento

(Se você gostou, fica aqui o convite para ler amanhã a segunda parte dessa história contada em 3 textos, te espero amanhã?)

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10 Comentários

  1. Euzébio parece estar sendo levado pelas circunstâncias que mais se parecem com a correndeza de uma enchente. O fim é sempre desastroso. Abrs http://www.ranchodascronicas1.wordpress.com

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  2. :O Mas quanta ausência de sorte! >< :ss

    PS: confesso que ri.

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  3. Na fila do azar meu filho passou quantas vezes?

    Curtido por 1 pessoa

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