Bem vinda, azarada sorte! – A Saga de Euzébio

E que atire a primeira maçã podre quem nunca fez uma cagada!
Euzébio e seu monumental azar continuam causando por aí, e ele bem que tentou mudar o rumo de seu destino, mas não adiantou de nada, o azar continua por persegui–lo.
Ele tomou banho de Arruda, visitou alguns Pais-de-santo, cartomantes, Centros Espíritas, igrejas e todas as opções que lhe eram cabíveis, mas seu azar só fez aumentar!
E por assim dizer, “suas infelicidades”, fizeram ele voltar a virar notícia por aqui…

Bem vinda, azarada sorte!

Depois de alguns pares de chifres, um relacionamento conturbado com o ex-presidiário sessentão sarado, de ter amargado algumas noites ao relento, de ter sua ficha suja para sempre na sociedade e de vários empregos perdidos, Euzébio resolve por seu próprio esforço mudar sua sorte. Decidido, ele abandona seu ex-companheiro, monta seu próprio negócio, e se afasta de uma vez de todos aqueles que se envolveram em seu longo e azarado histórico direta e indiretamente.
Com seus 50 anos de idade, mais experiente, mais esperto, está certo que não cairá tão facilmente nas armadilhas da sua sorte traiçoeira, e quem conhece a história de Euzébio sabe muito bem que de burro ele não tem nada, e que ele na verdade é bem inteligente, seu problema sempre foi o azar, e algumas vezes a inocência, e também o fato de tudo sempre recair sobre sua responsabilidade. Afinal esse título ele nunca perderá, o de ser sempre “O culpado”.
Usando bem o que aprendeu na faculdade de administração, consegue elevar ao patamar de um negócio bem-sucedido sua pequena locadora de DVDs e Games. Morando longe de sua antiga história, e tendo escondido em vários cantos de seu estabelecimento e sua casa vários amuletos e artefatos místicos que ele acredita trazer sorte, consegue ir levando sua vida numa normalidade nunca antes alcançada. E se torna num certo ponto uma pessoa enfim feliz.
Mas por mais que tenha por várias vezes acabado com sua felicidade (as poucas vezes que a sentiu), uma mulher em sua vida ainda lhe fazia falta, e apesar dos anos que passou com o “sessentão”, ele tinha certeza de que não era um homossexual.
Certa vez em sua loja, num dia que até então estava sendo bem normal, entra uma cliente nunca antes vista, mas que bastou naquele momento, aquela primeira visão, para que o coração de Euzébio batesse muito mais acelerado. Procurando se acalmar, lutando contra seus instintos masculinos que a muito tempo não desejavam tanto alguém, ele atende normalmente a cliente, que aliás, se chamava Dora. Mas como eu já disse Euzébio sempre foi inteligente, e também muito paciente, torcendo para que a moça quisesse muito alugar algum filme, ele apenas espera, pois teria que fazer seu cadastro, e em seu cadastro teria todos seus dados, inclusive telefone e endereço.
Euzébio agora estava interessado em alguém, tinha seu endereço, seu telefone, e não tinha em nenhum momento demonstrado esse interesse, podia calmamente descobrir se sua pretendida era ou não como as outras mulheres que haviam passado por sua vida. E foi realmente o que ele fez, começou investigar. E estava feliz com o que estava descobrindo, Dora parecia ser uma pessoa bem íntegra e batalhadora, e por certo humilde também, pois residia num pequeno apartamento de quarto e cozinha, trabalhava muito e não parecia ter muito mais além do que o necessário.
Estava na hora de botar em prática seu plano de conquista. Dora era uma cliente fiel de sua locadora, e por algum motivo que ele não sabia, tinha a impressão de que ela adorava viver num mundo de fantasia. Estava decidido, da próxima vez que ela aparecesse iria convidá-la para sair, e foi o que ele fez, mas não obteve sucesso, e o mais estranho é que Euzébio teve a impressão de que ela também sentia interesse por ele, e que por algum motivo desconhecido preferiu deixar de lado o interesse e dizer não ao seu convite.
Euzébio ficou desolado, mas se segurou, esperou para ver se o ocorrido iria afastá-la também de sua locadora, e parecia mesmo ter afastado, mas Euzébio tinha seu endereço, e esse pequeno contratempo (na verdade foi um fora mesmo) não iria impedi-lo de correr atrás desse seu mais novo objetivo. Euzébio resolveu agir com coragem, foi atrás dela para tirar essa duvida que o corroia por dentro, o verdadeiro motivo pelo qual ela não quis sair com ele.
Dora o atendeu com muita educação, convidou ele para entrar em seu apartamento, ofereceu-lhe algo para comer e beber, e conversou calma e educadamente sobre assuntos diversos que nada tinham a ver com o que Euzébio queria saber.
Euzébio notou que sua percepção estava correta, e que Dora era realmente humilde, mais até do que ele imaginava, seus móveis, suas roupas, tudo em seu apartamento transparecia a vida de alguém que batalhou muito para ter o que tinha. Enfim Euzébio conseguiu perguntá-la sobre sua dúvida, e ela pareceu sincera em sua resposta, mas mesmo assim parecia haver algo mais. Mas esse algo mais não o incomodava, e se sentiu satisfeito quando ela aceitou seu convite nessa segunda vez.
Saíram por várias e várias vezes, até decidirem assumir seus sentimentos e com isso um compromisso sério. Não demorou muito para Dora se mudar e ir morar com Euzébio. Dessa vez estava dando tudo muito mais do que certo, Euzébio parecia enfim ter acertado, estava feliz, os negócios iam bem, sua companheira era uma pessoa por demais boa e sincera, e o azar parecia ter por fim lhe abandonado.
Porém nada é para sempre, nem a felicidade, e se agora estava tudo muito bem, a única certeza que podemos ter é que não muito dificilmente tudo iria piorar como sempre, e que o azar do Euzébio já demorou demais para entrar em ação nessa história.
Começou pela locadora, numa bela noite de chuva em que o mais novo casal resolveu levar alguns filmes para assistir no apartamento após fecharem. A chuva não era muito forte, e mesmo que fosse não era necessário nenhum cuidado especial na locadora, pois o local era plano e alto, e muito seguro, mesmo assim ao amanhecer ficaram surpresos ao ver mais da metade de todos os seus filmes perdidos em uma inexplicável inundação.
Os prejuízos foram enormes, a água teve um ótimo gosto ao escolher os filmes para destruir, começou pelos lançamentos, seguiu pelos de ação e parou quando chegou a sessão dos filmes de terror, os mais alugados naquela região. Mas a maior surpresa foi saber que a inundação foi causada por um motivo muito estranho. Na laje da locadora havia um banheiro semi-terminado que foi usado pelos pedreiros e construtores do pequeno prédio, aparentemente o telhado do pequeno banheiro voou com o vento na hora da chuva, o vaso sanitário que até então estava entupido, desentupiu com a chuva, e a água da chuva e a que estava parada em seu encanamento achou uma saída que dava dentro do comércio do nosso amigo azarado.
Com todo o problema, o primeiro depois de muito tempo, nem passou pela cabeça de Euzébio que poderia significar o retorno de seu azar, mas era exatamente isso que significava. Ao somar todos os prejuízos Euzébio se viu quase que falido, pois além de todos os filmes que perdeu ainda teria que consertar o encanamento, reformar o piso de seu estabelecimento comercial, reparar as infiltrações causadas pelo encanamento antigo entre outros. Teria que vender seu carro, trocar seu apartamento por um menor, esvaziar sua poupança bancária e ainda fazer um empréstimo.
Se você leu as duas primeiras histórias de Euzébio, deve estar pensando: “agora sim, esse é o Euzébio que conheço”.
Euzébio podia assumir para si mesmo que estava recuperando o enorme azar que sempre o assombrou, e isso o deixava desesperado, mas o que mais o preocupava era o fato de ter que contar sobre esse seu probleminha para sua amada Dora, sua única real sorte, e contaria, pois não suportava a idéia de mentir ou omitir algo dela que sempre foi tão sincera.
A noite, após o jantar, resolve preparar o terreno para poder contar-lhe sobre sua história de azar, mas antes de começar, Dora avisa que tem algo muito delicado e sério para falar-lhe, e que durante seu relato não gostaria de ser interrompida.
Foi a maior surpresa para Euzébio descobrir que ele tinha um sentido muito apurado, depois de tanto apanhar da vida, e que realmente havia algo mais com Dora como ele imaginou no inicio, no apartamento dela, quando ela explicou-lhe o porque de sua recusa ao seu primeiro convite.
Dora explicou-lhe que não queria se envolver com ele no início, por medo de contaminá-lo com seu enorme azar (que ironia do destino não acham?), pois tinha percebido desde o inicio que ele era um homem muito bem intencionado e de bom coração, mas que não resistiu ao seu segundo pedido, pois sua gentileza, sutileza, educação e respeito foram as primeiras coisas que a conquistaram, se envolveu, mas ainda assim tentou de tudo para que o azar não se sobressaísse a sorte que teve ao encontrá-lo, mas não obteve sucesso, pois depois de tanto tempo juntos (pouco mais de 1 ano) aconteceu-lhe essa desgraça com seu ganha-pão.
Euzébio ao final de sua narrativa nem contou-lhe sua história, pois não podia negar a si mesmo que estava feliz por enfim não ser o culpado (pelo menos na mente de Dora ele não era), mesmo tentando conter a desconfiança de que a culpa era toda sua não pode negar a si mesmo uma simples conclusão:
“Dora até poderia ser a azarada e ter o seu azar como a culpa pelo ocorrido na locadora, mas não teria culpa parcial ele mesmo e seu azar, pois depois de ter se curado de seu problema com a falta de sorte, ter superado tudo que passou e estar até mesmo um pouco feliz, tinha que se apaixonar justamente por uma linda mulher que tinha como principal característica um azar tão grande quanto o seu? Não era ele culpado por se envolver com uma mulher sabendo que elas sempre foram as maiores causas de suas desventuras, e ainda a colocá-la debaixo de seu teto?”
Sim era ele, Euzébio era o culpado como sempre. Mas dessa vez ele nem estava ligando, pois se seu azar era o causador de seu encontro com Dora, se seu azar atacou de cupido juntando o homem mais azarado do mundo, culpado por natureza, à mulher mais azarada do mundo, bendito fosse seu azar, pois azarada ou não, ela era sincera, o amava, e não seria capaz de traí-lo, e ele a amava muito. Nunca mais cadeia, nunca mais relento, nunca mais humilhações, e enfim adeus sessentão sarado, enfim teria sua masculinidade respeitada.
E assim viveu, feliz e azarado para sempre!

Gill Nascimento

Anúncios
Deixe um comentário

5 Comentários

  1. aaaadorei!!! Hahah
    Que euzébio e muitos outros vivam felizes e azarados para sempre.. 😉

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  2. Ahahahahahahaha muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  3. Tem continuação? Filhos azarados do Eusébio e da Dora?

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: