Olhos mágicos…

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Sempre gostei de ver as coisas como realmente são, de criar analogias mentais, de perceber seus valores, de pensar como seria se algumas coisas não existissem. Sou assim, dou atenção demais a cada detalhe, sou intenso, perceptivo, e me orgulho muito disso, mas não posso deixar de notar a desvalorização e diminuição de muitas coisas, e de como seria diferente se isso não acontecesse.
Lembro da minha infância na cidade de Embu das Artes, de como eu e mais 7 amigos jogávamos futebol na calçada da creche que tinha em frente a minha casa. Lembro de como as “tias” da creche não usavam a calçada para parar seus carros, já pensando na nossa diversão. Lembro das sandálias havaianas usadas como traves no gol, e de como a imaginação conseguia pintar traves como as do Maracanã. Lembro de como aquela calçada que cabia apenas três carros parecia para meus amigos e eu um estádio de futebol.
Ainda nessa linha de pensamento e sem sair da frente da casa da minha infância, lembro do Seu Roberto: um senhor com um tique nervoso que dava agonia de ver, mas com um coração muito grande, lembro de como ele arriscava seu trabalho como caseiro da creche, e nos deixava entrar lá nos finais de semana, para jogar bola no pátio, brincar no Playground, subir nos pés de ameixa e nos pés de abacate para colher as frutas direto da árvore. Lembro de como chegava em casa carregado de abacates e de como minha mãe os embalava em jornais, e os colocava no forno do fogão para amadurecer mais rápido.
Sem sair da minha rua e da minha infância, lembro de como era pra gente um grande universo tudo aquilo, da rivalidade que eu e minha turma de amigos tínhamos com a turma das crianças da rua de cima. De como a gente brincava de pique-esconde durante um dia inteiro, e os vizinhos até nos ajudavam oferecendo seus quintais pra gente se esconder. Lembro que cada vizinho me conhecia, e eu conhecia cada um, eram todos meus tios e tias do coração. Lembro das brincadeiras de pega-pega, e de como era automaticamente desclassificado quem corresse apenas em linha reta na rua pra garantir que não fosse pego, nossa rua era nosso mundo.
Lembro da copa do mundo de 94, dos adultos nos dando tintas, rolos e pincéis, para pintar a rua e os muros. Lembro de alguns que merecem ainda mais destaque, pois eram aqueles que sempre que estavam de folga ficavam para assistir meus amigos – e eu – se divertindo, como se aquilo fosse um grande evento. Aqueles adultos que providenciavam cavaletes e faixas para fechar a rua, para que os carros não fossem um perigo para a gente.
Lembro dos nossos lugares secretos, dos nossos pactos de amizade, da nossa pontualidade para as brincadeiras, de como tudo era tão importante para a gente, cada detalhe, de como nos uníamos quando um da turma estava proibido de sair, fazíamos manifesto em frente a casa ate os pais da criança mudarem de ideia e o deixasse sair para brincar.
Lembro de como nossas mães se preocupavam quando caíamos jogando bola ou correndo na rua, de como sempre tinha uma ou mais já com o Methiolate e os curativos prontos, de como sempre aparecia uma mãe, ou até mesmo uma vizinha sem filhos com um suco pra nos oferecer.
Reclamavam da nossa bagunça, de como éramos barulhentos, mas era tão visível o amor que sentiam pela nossa alegria de viver.
Tudo era tão grande.
Tudo tinha tanto valor.
Tudo era tão importante.
Tudo faz tanta falta!
Ainda hoje tenho mania de ver nas coisas muito mais do que a maioria das pessoas vêem, mas ainda vejo menos do que via quando era uma criança com uma vontade gigantesca de viver cada segundo por vez.
Adoraria reencontrar meus olhos de menino, meu coração de pirralho, meus valores de sobrinho do mundo.
Passei um dia desses pela rua em que cresci e tudo isso de repente invadiu minha mente sem pedir licença, e então escrevi, mas gostaria mesmo era de reviver…

Abraços!

Gill Nascimento

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23 Comentários

  1. Me gusta el diseño, en el móvil no se aprecia, pero en el ordenador sí. Está genial.

    Curtido por 2 pessoas

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    • Gracias amigo, ya que he creado este blog en nombre de mi amor por la escritura, no he tenido tiempo para trabajar su mirada, pero voy a estar de vacaciones pronto y entonces esa será mi prioridad, he hecho algunos presupuestos y veremos lo que sale más en cuenta! Gracias por su opinión y volver cuando quieras! Abrazos!

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  2. Muito bom ler o que você escreveu. A mim também trouxe muitas lembranças. Uma infância realmente vivida. Atualmente me questiono que lembranças nossas crianças levarão. Parabéns. Bela crônica.

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  3. Lindo texto!
    Nossa infância está dentro da gente… dá pra você reencontrar seus “olhos de menino” e seu “coração de pirralho”.
    Tenha um lindo dia!
    🙂

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  4. Texto maravilhoso, como todos os outros que você escreve. Essas lembranças de infância são as mais doces 🙂

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  5. Ah rapaz! Como sempre arrasando no texto!
    Pois é… Realmente tudo teve um gosto especial na infância e hoje têm aquele gostinho de quero mais!
    Também tive uma infância rica e cheia de amigos, poucos caminharam comigo nessa jornada da vida. Mas a saudade existe. Mas podemos fazer um resgate na mente, os momentos sempre estarão guardados.
    Parabéns novamente pelo texto.

    HuG!
    Ps: Corre lá no blog que tem novidade! rs
    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter

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  6. Também sempre tenho a mesma sensação. Tive uma boa infância, embora com alguns momentos traumáticos, mas foi boa. Devemos ser sempre Peter Pan, envelhecer com alma simples e alegre que a juventude e sabedoria exige, porque as crianças em geral sabem aproveitar melhor seus momentos. Bjs

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  7. Que delicia relembrar de coisas boas!!! :))) bate uma saudade e surge até uma lágrima hahah 😛
    94, ano em que nasci. Copa.. Hahah
    Beijao :*

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  8. Quando eu fazia um gol no campo da minha rua, as “curtidas” eram os apertos de mãos e os abraços dos meus amigos. A infância de hoje é uma partida de futebol num tablet. Ninguém se machuca, e as crianças não saberão que o Merthiolate era um remédio que provocava mais dor que o ferimento. Cedo aprendíamos que a nossa alegria corria o risco de um sofrimento e que era melhor prevenir quê, literalmente, remediar.

    O que me preocupa não é só a mudança na forma de diversão de uma geração para outra, mas principalmente os valores perdidos após cada época. A tecnologia, em vez de uma ponte social, pode ser uma barreira individual.

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  9. Que texto bom. Nostálgico e reflexivo, a saudade bateu forte agora. A infância foi maravilhosa, realmente. E parecia que tudo era mais verdadeiro.

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  10. Parabéns, é impossível acessar seu blog e ler apenas um texto. É muito bom, leve, divertido, encantador! Parabéns, mais um texto perfeito!

    Curtido por 1 pessoa

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