Nossas Manias Heróicas

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Cinco da manhã e ela vem bater aqui em casa. Algo que acontece uma vez a cada seis meses, aproximadamente. Eu atendo. Algo que acontece sempre. É só ela beber um pouco e acreditar que há algo não resolvido, que aparece. Não me importo muito. Até gosto, na maioria das vezes.
Geralmente ela chega com cheiro de cerveja e um rosto que não deixa transparecer se está feliz ou puta da vida. Dessa vez, está com um vestido azul, na altura das coxas, com a barra bordada – deve ter sido feito pela mãe dela, que a propósito é ótima costureira – e um casaco que não pude perceber a cor, pela escuridão do carro. Ou, se percebi, não reparei o suficiente pra me lembrar.
Os olhos, mais mel do que nunca. E o sorriso, branco e reto, como sempre – resultado de anos de uso de aparelho.
Antes, ela ligava e eu a encontrava para conversar. Agora, que é independente, ela que aparece quando deseja.
O assunto, não importa muito. Ou melhor, importa. Mas, ela não vai se lembrar dele no dia seguinte, ou daqui duas semanas. O único interesse é dar a última palavra na discussão que foi encerrada há dias. E, me fazer dizer que ela está certa. Não dessa vez.
Evitando a discussão, e bêbado de sono, tento explicar o que ela já sabe. O melhor exemplo, encontro em um filme bem fraco: Hanckok.
Um cara que tem todos os requisitos para ser um super herói, mas que se afunda no álcool para esquecer ou para tentar lembrar e, um certo dia descobre que tem sim um passado.
O problema, é que no passado dele, existe uma mulher.
(É impressionante como a vida não tem criatividade alguma em seus roteiros.)
Eles se amam, ficaram juntos nos últimos 3 mil anos. Mas, sempre brigando.
Ela, já casada com outro. Ele, casado com as garrafas.
Podem até tentar ficar juntos, entretanto, se tornam mortais. Estar perto, os torna destrutíveis. E, eles tem mais poder ainda pra se matar.
Acho que deu pra entender.
Como sempre, quando comigo, algumas lágrimas rolam do rosto dela. Já foram tantas as vezes, que dessa vez nem me lembro o porquê.
Como nos últimos anos, nem ao menos nos tocamos. Apenas atendemos a necessidade de falar alto um com o outro e, nos afastamos, novamente.
Daqui seis meses a história se repete, por mais que sempre digamos “eu não apareço mais” e “eu não atendo mais”. Afinal, temos essa necessidade de nos matarmos. De nos tornarmos destrutíveis.
Daqui seis meses, iniciamos uma nova discussão e, descobrimos um novo super herói.
Todavia, nossos super heróis sempre serão, bêbados, arrogantes, que falam alto e, acima de tudo, humanos.

Abiezer Lopes

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4 Comentários

  1. Republicou isso em abiezerlopes.

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  2. Resumo o texto e minha adoração por ele com a frase: a dor precisa ser sentida

    Bom dia!

    Curtido por 1 pessoa

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  3. Humanidade. Bom, não deixa de ser um poder

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