Seres afetados

image

Somos todos seres humanos, essa é a nossa espécie, mas nem todos somos “humanos”.
Ser uma pessoa humana é difícil.
Somos uma confusão de sentimentos, uma guerra de emoções, uma disputa interna entre o bem e o mal, o certo e o errado.
Somos seres afetados.
A gente afeta e se afeta com tanta facilidade, e o pior, é tão natural que nem notamos.
O modo como os acontecimentos nos afetam é totalmente aleatória, não existe um padrão, não existe uma equação que defina o quanto seremos afetados conforme um tipo de acontecimento.
É tão aleatório que, aposto que vocês que estão lendo, ou conhecem, ou até podem vir a ser, uma pessoa que já resistiu firme e forte à uma verdadeira tragédia, mas um acontecimento bem menor, simplesmente à destruiu por dentro.
Somos feitos de marcas e cicatrizes.
Sim, esse é o problema, marcas e cicatrizes são meio que vitalícias. Uma hora você se pega acariciando aquela esquecida cicatriz, meio que involuntariamente, e então tudo volta à memória, tudo que aconteceu e causou essa cicatriz.
O quão difícil é esquecer. Não é mesmo?
Meu avô costumava dizer que aquilo que não nos mata, nos fortalece, e eu concordo. Eu sou uma pessoa muito afetada, e de vez em quando me pego acariciando algumas feridas cicatrizadas, e ao mesmo tempo que um pouco de dor volta à tona, também penso em como consegui superar e sobreviver.
A dor é aquele aviso que surge no momento em que você está bem e vulnerável, de que você é humano e ainda pode ser mais afetado, e que em seu corpo e em sua alma ainda há espaços para mais marcas e cicatrizes. A dor costuma trazer consigo a prudência.
O início é sempre o pior.
Quando a cicatriz ainda é ferida aberta, e não tem remédio que faça diminuir a dor.
Você passa o dia sentindo a dor dessa ferida, ela afetando sua vida pessoal, social e profissional. Cada pontada de dor é uma enxurrada de memórias que vêm à mente, acompanhada de golpes de tristeza e desânimo.
Você deita na cama e leva horas para conseguir fechar seus olhos.
Somos humanos.
Qual pessoa nunca deitou a cabeça no travesseiro e  não ficou imaginando, como algo que te afetou poderia ter acabado de outra forma, se você tivesse agido de uma maneira diferente?
Muitas das vezes nessa hora, em que a ferida ainda é recente, somos o nosso pior inimigo, ficamos nos martirizando, nos culpando, dizendo para nós mesmos que as coisas deram errado porque não enxergamos o melhor modo de conduzí-las.
É assim, essa tortura sempre é mais intensa quando sua cabeça encosta em um travesseiro.
O pior é quando isso afeta até o nosso sono, invadindo nossos sonhos, transformando eles em pesadelos.
Somos seres afetados, e no momento que deixarmos de ser afetados, deixaremos de ser humanos.
Depois que a ferida doeu durante o dia inteiro, te impediu de dormir na hora prevista, atrapalhou seu sono e seus sonhos, ela ainda faz questão de que sua dor seja a primeira coisa que você lembre, note e sinta, ao acordar.
Eu já vivi isso, e tenho certeza que muitos de vocês que estão lendo, também.
Já houve acontecimentos em minha vida que me marcaram, me feriram, e durante muito tempo eu me afetava completamente durante o dia, dormia mal durante a noite, e quando acordava já era assombrado por esses acontecimentos.
Durante muito tempo meus primeiros pensamentos ao acordar, eram sobre as minhas feridas, e sim, o dia começava mal, psicologicamente.
Mas um dia você acorda, e aquilo que era seu primeiro pensamento todos os dias, de repente, surge como segundo pensamento, e um tempo depois como terceiro, e mais um tempo depois como quarto, até que você nem pense mais.
Porque feridas fecham, e viram cicatrizes, cicatrizes que mais coçam do que doem.

_

Gill Nascimento

(Esse texto foi um pedido de uma leitora, a querida Lourdes Carpanni, diretamente na página de sugestões do Blog, fiquei muito feliz pela sugestão do tema e em atender seu pedido. Quem gostou, e também tem um tema em mente que gostaria de ver exposto aqui, pelo Abiezer ou por mim, pode ficar a vontade para pedir, atenderemos com Prazer.
Amanhã tem texto do Abiezer Lopes a pedido também da Lourdes, o tema é “Possuir Dois Amores”, já está pronto e agendado. Não percam, ficou muito bom.)

Anúncios
Post anterior
Post seguinte
Deixe um comentário

24 Comentários

  1. ai,ai..este texto me fez lembrar de uma canção que escrevi, é um texto muito forte e muito verdadeiro.
    Na canção há um trecho que diz:
    “ao ver as cicatrizes posso lembrar
    de cada batalha travada
    ontem feridas abertas,
    hoje restaram as marcas de lugares que passei.
    Estive no chão,
    estive na prisão,
    refém em castelos de dor,
    mas a estrada seguiu,
    teu amor(Deus)me curou,
    cadeias caíram e eu estou de pé…”(claro que não vou escrever a letra toda,desculpe a empolgação.)
    cicatrizes são na verdade marcas de sobrevivência,devemos nos orgulhar delas!
    Obrigado pelo texto,e por se inscrever em meu canal no You Tube,fiquei felicíssima.
    Até a próxima!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
    • Se o trecho da música já é lindo, imagina ela completa …
      E o que disse é uma analogia interessante para o que escrevi, vivemos uma guerra interna com nossos sentimentos, onde muitas vezes eles nos traem e nos apunhalam pelas costas, somos todos soldados e só sobreviventes de um campo de batalha que geralmente nós mesmos criamos.
      De vez em quando me pergunto se pessoas que não.se entregam aos seus sentimentos são, soldados covardes ou soldados prudentes, e sinceramente sempre acho as duas respostas corretas.
      Eu vivo um momento onde acordo todo dia esperando que meu primeiro pensamento tenha se tornado o segundo, ainda não aconteceu, mas é como você disse, cicatrizes são marcas de sobrevivência, e quando a ferida se fechar, com certeza terei muito orgulho!
      Amei o comentário Alê, vou acabar ficando mau acostumado com minhas leitoras kkkkkkkk

      Tenha um lindo dia!

      Beijos!

      Curtido por 1 pessoa

      Responder
  2. Parabéns…💟
    Muito lindo o texto!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  3. Legal você falar dos seus sentimentos. Todo mundo é bastante parecido.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  4. ótima sugestão de tema e ótimo texto, como sempre.
    Geralmente somos mais fortes para coisas muito impactantes. Mas quando é algo mais singelo, porém que te acerta em cheio, já era :c vem aquela jorrada de emoção e pensamento..
    Boa quinta! :*

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  5. “Uma hora você se pega acariciando aquela esquecida cicatriz, meio que involuntariamente […]”
    É isso! Somos todos, por algum motivo e em algum momento específico da vida, seres afetados.

    Ser “humano” é um patamar muito difícil de alcançar.

    Beijão Gill!
    Um excelente fim de semana☺

    Curtido por 2 pessoas

    Responder
  6. Siamo umani, dici bene.
    A volte siamo forti, a volte fragili. Le ferite si chiudono ma lasciano inevitabilmente le cicatrici, e quelle cicatrici quando c’è mal tempo provocano dolore, anche dopo anni, perchè mal tempo c’è sempre nella vita e le cicatrici ce lo ricordano.
    Ma se quelle ferite non ci hanno ucciso vuol dire che abbiamo buoni anticorpi. Usiamoli.
    Buona serata.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  7. Depois disso o que dizer? Muito prazer Ser humano! 🙂
    Muito bom Gill! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  8. É um tema que me faz refletir muito, fiz até um texto sobre ( https://arcoirisduplo.wordpress.com/2015/07/03/as-melhores-pessoas-sempre-carregam-alguma-cicatriz/ )

    Acredito que o que nos faz humanos são nossas cicatrizes.

    Ótimo texto!

    Abraços,

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  9. Parabéns Gil. Fico muito feliz de ler algo assim!! E obrigado por sempre estar me incentivando através do seu like lá no blog. bjkssss!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  10. A parte que me chamou atenção foi justamente quando disse algo sobre resistir a uma tragédia e ser derrubado por algo menor. É verdade e ainda me impressiona. Cheguei a me sentir culpada por ter sofrido tanto por algo que, se comparado ao que já havia passado, era irrelevante. Não consegui ainda identificar o porque de fazer isso, mas aconteceu e não apenas uma vez. Porém a melhor parte de lembrar das cicatrizes (momento em que por mais que doam, parecem boas), é quando percebemos não ser mais o primeiro pensamento pela manhã. Detesto ficar assim pois prejudica minha produção ou pior, me expõe quando escrevo. Mas escrever é isso, se expor ou perde a verdade. Acho que sou meio masoquista, as vezes, pois procuro, voluntariamente, minhas cicatrizes só pra provar que não me afetam mais. Ou não tanto quanto antes. É a minha forma de descobrir se ainda possuem a força pra me derrubar em algum momento especialmente indevido. Cada um com suas técnicas, essa é a minha, mas não aconselho. Funciona pra mim, mas nem sempre. Seu texto me fez exatamente isso e me sai muito bem. 😀 Isso é bom!!!
    Excelente fim de semana…aqui, com bastante chuva.
    Beijo meu lindo!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  11. Gill, adorei, ficou bem profundo, e acho que explica maravilhosamente bem como nos sentimos.
    Obrigada *-*

    Bjos

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  1. Seres afetados | MariaLDario's Blog

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: