Aceitando os fins!

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Um dia desses estava conversando com um amigo, e ele me contou uma história que me fez pensar bastante.
Ele há alguns meses, resolveu colocar a mão na massa e transformar um dos cômodos da casa em um ateliê de pintura, passatempo pelo qual é apaixonado, e sempre pratica nas horas vagas.
Como ele não tinha a mínima experiência em reformas domésticas, então leu livros, assistiu vídeos de “Faça você mesmo”, tutoriais no YouTube, e tudo que pudesse ajudar e que conseguiu encontrar.
Deu certo, conseguiu criar o ateliê e ficou muito orgulhoso de si mesmo com o resultado.
O problema é que isso foi há semanas, ele gostou tanto da sensação de fazer com suas próprias mãos, quase a mesma sensação que sentia ao pintar seus quadros, que não queria parar, e então imaginou o que mais poderia acrescentar ao ateliê, e continuou. Quando na verdade deveria ter parado.
Agora passada aquela vontade absurda de construir, e retornando a de pintar, ele percebeu que o ateliê que havia ficado exatamente como ele queria e havia imaginado, se tornou algo estranho, uma bagunça, cheia de exageros e inutilidades, tudo porque ele não soube parar na hora certa.
Então comecei a perceber que muitas vezes fui assim, e que conheço muitas pessoas que já passaram por isso também.
É ótimo descobrir a sensação de sentimento naquilo que se faz, assim como é duro ver aquilo ao qual dedicamos esforço, carinho, sentimento e suor, chegar ao fim. Mas ainda pior é não saber aceitar esse fim.
Geralmente nesses casos, damos um início arrasador e marcante, um meio inesquecível e satisfatório, mas nunca sabemos dar um fim digno e merecido.
Mas não é só naquilo que fazemos com as nossas próprias mãos, que isso acontece. Somos humanos, nascemos com esse defeito, às vezes não sabemos identificar a hora certa de parar.
Eu mesmo já perdi a deixa pra finalizar ciclos em minha vida, que acabaram se prolongando mais do que o necessário, e aquilo que era tão agradável, acabou se tornando estafante.
Descobri na prática que acabamos tornando algo importante e prazeroso em nossa vida, em algo cansativo e rotineiro, quando não percebemos que é a hora certa de parar.
A vida é assim, tem coisas diárias que um dia precisam se tornar esporádicas, tem coisas que fazem parte do nosso dia a dia, que em dado momento precisam deixar de fazer. E tem coisas que estão num nível bom, que até podem melhorar, mas naquele momento, para nós, o “bom” é a melhor opção, mais que isso, o bom é o suficiente e necessário.
Hoje sou mais tranquilo referente a isso, mas já vivi uma fase em que nada estava bom para mim, sempre queria mais, sempre queria melhorar, sempre queria continuar, e confesso, me dei mal em muitas ocasiões durante essa fase da minha vida.
Demorei pra aprender a conviver com o fim das coisas, conviver com o fato de que tudo um dia precisa de fato terminar.
Na verdade nem sei se aprendi.
É como escrever uma história. Chega um momento em que você relê o que está escrevendo, e se empolga ao perceber que está ficando muito bom, e então alcança a conclusão perfeita, mas se apegou tanto à história que, simplesmente não consegue conviver com a ideia de que ela tenha chegado ao fim. Então resolve dar continuidade, e então acaba estragando uma história até então perfeita.
Acho que é o medo de deixar aquilo, com o qual já nos acostumamos, ir embora, e abrir espaço para o desconhecido, o inesperado, mas chega aquele momento em nossa vida que descobrimos o quão gostosa é a sensação de pisar na estrada de um novo caminho, e que na verdade não existem fins, apenas novos começos.
E novas histórias!

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Gill Nascimento

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66 Comentários

  1. Caro Gill, que dizer desse texto. Simplesmente perfeito, do inicio ao fim. Abraço, amigo, boa madruga.

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  2. Muito bom! Mas confesso que me lembrei da saga Harry Potter no último parágrafo quando você diz sobre histórias boas que chegam a conclusões perfeitas e autor insiste em continuar kkkkk

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  3. naomitanabe

     /  2 de março de 2016

    Que profundo! E faz todo o sentido, mas com uma ressalva: acredito que devemos fazer qualquer coisa que nos motive sem pensar no fim, no término. Quando, e se, chegar ao fim, bola pra frente e vida que segue e bora descobrir outra coisa que nos desperte paixão.
    Eu acho que a gente tem que fazer aquilo que a gente acha que tem que fazer. Se for demais, vamos consertar os excessos, se for de menos, vamos incrementar isso aí. E se não der mais tempo de consertar, vamos escrever novas histórias!
    Beijo

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  4. Caramba! Concordo demais! E tenho essa dificuldade de dizer adeus!
    De me adaptar a uma nova fase. De perceber que o fim é melhor pra que novos recomeços cheguem…
    Mas como você, estou aprendendo! Aos poucos vamos amadurecendo, desapegando e nos tornando mais sábios ^^

    Um beijo e parabéns por mais um belo texto 😀

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  5. Gill, you are a wise guy! 😀
    Ciao
    Sid

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  6. (palmas) hahaha’ Abraços Gil.

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  7. Eva Camargo

     /  2 de março de 2016

    Eu já passei por isso várias vezes, pois nunca fui muito boa em aprender a colocar pontos finais, mas a vida ensina e uma hora a gente aprende. Eu aprendi por mal e quebrando a cara, mas aprendi. Eu adoro seus texto, gratidão por ter lido este hoje! Beijos.

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  8. Excelente!

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  9. Sabe aqueles blogs viciantes? Então, seu blog é um desses! Amo seus textos.
    Te indiquei o Prêmio Dardos lá no blog!!! beijão :*

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  10. Concordo com você, muitas vezes estragamos uma historia por não saber colocar um final nela e seguimos até perceber que já estragou.. Cada dia gosto mais dos seus textos..Gostaria de escrever assim hehe..
    http://www.petitluxo.com

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  11. É Gill não sei o que é mais difícil, deixar ir ou deixar ficar.
    Eu também já fui muita apegada a coisas, sentimentos, pessoas. No meu caso, foi para o próprio bem aprender a deixar ir. Deixei tanta coisa ir, coloquei fim em tanta coisa na minha vida que até hoje me surpreendo em como posso ter passado tão rápido de alguém que idolatrava algo, para alguém que nem se lembra da existência hoje.
    Aprender a por fim, a saber o limite de algo é muito difícil, mas muitas vezes é o divisor de águas. Adorei o texto.
    Beijossss 😉

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  12. Concordo plenamente com o texto e que, para mim, tem tudo a ver com limites, desapego, autoconhecimento e por aí vai. Eu costumo me perguntar: continuar por este caminho me fará feliz ou será um peso? Abandonar este caminho será triste ou grande alívio? Normalmente, nós sabemos o que é bom para nós, só não queremos admitir de plano.

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    • Já escrevi sobre isso aqui, nem lembro qual foi o texto, mas somos péssimos auto conselheiros mesmo, e geralmente nos fazemos perguntas, nos damos as respostas, e nós mesmos não acreditamos nelas, aí fica difícil, o auto conhecimento vem com o tempo, com o amadurecimento, pode até demorar, mas o processo é necessário mesmo!
      Abraço amigo! E um ótimo fim de semana!!!

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  13. Deixar ir, aceitar finais é, muito vezes, o início de ciclos grandiosos de vida. Parabéns pelo texto!

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  14. Excelente reflexão! Parabéns, Gill!

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  15. Bom dia! Te indiquei ao Premio Dardos. Um beijo, Filomena Sayão, editora do blog http://www.sigavalemais.com.br.

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  16. Nunca tinha parado para pensar por esse lado, e não é que é verdade.. quantas vezes a gente até meio q sabe que chegou ao fim.. mas achamos que podemos melhorar acrescentando mais dias, mais histórias, mais detalhes.. e depois a gente repara que se tivesse chegado ao fim antes teria uma graça.. mas como passou, ta tdo bagunçado!! gostei d ler sobre isso!
    Nos faz pensar!!
    Cris

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  17. kellicarine

     /  4 de março de 2016

    Um texto incrível, uma reflexão importante para mim. Aceitar o fim das coisas, fechar ciclos e recomeços!

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  18. Ah Gill, sempre que venho aqui me surpreendo. Sabe quando você lê um texto que se encaixa perfeitamente no seu momento? Pois é o que acaba de acontecer. Entender que tudo tem um fim, é simples, o complicado é aceitar esse fim. Aceitar que ciclos se encerram para que novos iniciem, é complicado, e nós, seres humanos, imperfeitos que somos, temos a tendência de tornar tudo mais complicado. É como diz a frase: “Foi bom enquanto durou, e durou enquanto estava sendo bom, mas acabou. ” Texto incrível, como sempre. Beijos!

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  19. tremenda passion.I gostado do post.

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  20. Laércio Becker

     /  7 de março de 2016

    Bem, pelo menos ele terminou! Começo mil coisas para terminar uma.

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  21. Odilar Júnior

     /  7 de março de 2016

    Preciso aprender quando hora de finalizar e seguir em frente. Sou daquele tipo que começa algo e não termina ou quando tenta terminar, acha que ainda não está bom o suficiente, resultando num acúmulo de coisas mal-terminadas. Talvez seja por eu ter uma tendência ~perfeccionista~.

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  22. Gill, cadê tu? Não vejo seus posts há alguns dias.
    Beijo

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  23. Tenho uma sugestāo para hoje, Gil! Post novo! 😁 rs

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  24. Oi Gil. tudo bom? Curti o seu blog cara!! Tmabém tenho um, mas voltado pra área de arquitetura e decoração, essas coisas… Tô procurando blogs legais para fazer parcerias, topa?
    rcarqdesign.wordpress.com se alguém quiser acessar!
    Abraços!!

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  25. Olá, indiquei seu blog para responder uma tag: https://garotasdejales.wordpress.com/2016/03/11/tag-8-coisas/#more-8443
    Espero que goste 😀

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  26. viciolicito

     /  12 de março de 2016

    Pow, muito verdade tudo isso, pensando sobre..

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  27. Gil, será que esse nunca saber parar não faz parte da busca pelo fazer ideal que nunca iremos atingir? Penso que se acharmos que atingimos esse “ideal” estamos de fato mortos como sujeitos da criação. Fazer mais o quê? A insatisfação, a angústia não são as molas propulsoras da nossa criação?

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  1. Links da blogosfera – Março/2016 – ISABELLA CAS

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