Pai clichê…

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Estava aqui pensando como a vida é ingrata, a gente faz tudo para melhorá-la, e de repente ela vai e cospe verdades e realidades na nossa cara, que a gente preferia desconhecer e continuar como sempre, se iludindo.
Como por exemplo um dia desses, em que estava na casa da minha mãe, na ocasião resolvi fazer uma pergunta para ela, até simples (mas não vem ao caso), e a resposta foi:
“Filho, senta aí que eu vou te contar uma história!”
Ela é minha mãe, claro que obedeci, e se tem uma coisa que deixa qualquer pessoa triste, é quando alguém não quer escutar uma história que ela tem para contar, mas na minha mente eu pensava: “Senhor Jesus, só pra lembrar, eu não joguei pedras na sua cruz, se tinha alguém lá parecido comigo, não era eu!”.
A verdade é que pais geralmente não são bons com histórias, se fossem, as crianças não pediam que eles contassem uma para elas dormirem.
Talvez um dia eles tenham sido, ou com certeza serão, até porque não tem coisa mais legal do que histórias contadas por velhinhos(as), mas aí tem por trás toda bagagem que eles carregam com a idade.
Foi nessa hora que me veio aquele choque da realidade, eu sou um desses pais, minha filha sempre dorme enquanto conto histórias para ela, logo eu que sempre me considerei um bom contador de histórias, agora no fundo acho que me tornei um bom e velho clichê.
Me lembrei que sempre pensava, na hora das broncas, castigos, proibições, e de todas aquelas manias dos pais, que eu quando fosse pai seria diferente, pois lembraria de tudo isso que passei.
E o choque da realidade foi lá e me deu outro cruzado de direita.
Lembro que sempre quando ia sair pra brincar com meus amigos na época do frio paulistano, minha mãe me enfiava dentro de todos os casacos que eu tinha disponíveis, e eu saía bravo, porque se eu tirasse ela ia brigar, e se eu corresse todo coberto daquele jeito, na hora de brincar, em 10 minutos estaria exausto e todo suado, mas não adiantava falar isso pra ela, então ficávamos meus amigos e eu, todos 30 quilos mais pesados, brincando de algo que não exigisse nenhum esforço físico.
Já perdi as contas de quantas vezes fiz a mesma coisa com a Areta, chegando ao ponto de dizer a famosa frase: “Se você ficar doente sou eu quem vai ter que te levar no médico e ficar cuidando de você, então nada de sair sem agasalhos, mocinha!”.
Me lembrei também de como eu ficava com raiva quando eu ia pedir algo diretamente para o meu pai, porque já sabia que minha mãe não iria permitir, e ele respondia com aquela cara de bundão que todo pai possui: “Pede pra sua mãe, se ela deixar, por mim tudo bem!”.
Tadinha da minha filha, quantas vezes ela perdeu de se divertir por minha causa. Será que eu também faço a cara de bundão que meu pai fazia?
Outra lembrança que veio à mente, foi de como eu ficava puto, quando tinha visitas em casa, e eu me tornava o assunto da conversa, meus pais falando dos meus micos, das minhas manias (principalmente as que eu tinha vergonha), dos meus defeitos e tudo mais de humilhante que uma criança poderia ter, como se eu nem estivesse ali na sala ouvindo tudo, como se eu fosse alheio a tudo aquilo, pensava: “Ei, seus velhos, sou criança, mas também tenho meu orgulho sabia? E ele também pode ser ferido!”.
Pensava, mas da boca não saía nada.
Espero que minha princesinha me perdoe, pois eu faço isso com muita frequência, tamanho pai babão que sou, inclusive com o famoso clichê de encerramento a cada narrativa sobre ela: “Ela não é uma gracinha?”. Porque para nós pais, as histórias são sempre engraçadinhas e bonitinhas.
Outra coisa que me atormentava eram as lições de casa. Eu chegava sexta feira da escola com um sorriso que mal cabia no rosto, pois escola até então só segunda, e qual era a primeira coisa que minha mãe falava?
Isso mesmo: “Lava as mãos para almoçar, depois trate de fazer a lição de casa!”
Caramba, era sexta apenas, tinha o sábado, e o domingo ainda, a lição não poderia esperar até depois do Faustão?
Coitada da minha filha, mal começou na escola e eu já fiz isso até por telefone.
E sobre a alimentação então?
Cada almoço era um pequeno inferno pessoal, cheio de legumes e verduras que eu via só no meu prato, mas nada nos pratos dos meus pais. Quando eu ouvia alguém falar na televisão sobre maltrato infantil, lembrava das refeições e pensava: “Só não denuncio meus pais, porque eu amo muito eles, mas bem que eles merecem, isso não se faz com um filho, nem como castigo!”
Nesse caso eu até ganho um ponto, pois também como muitos legumes e verduras, mas ainda assim, não custa nada de vez em quando fazer uma vista grossa pra agradar nossas crianças, elas merecem, e convenhamos, essa alimentação realmente é essencial, mas o paladar infantil parece ser diferente, hoje em dia adoro e acho saboroso, mas quando eu era uma criança, as mesmas comidas eram ruins pra cacete.
Sabe o que é tudo isso?
Isso se chama “Praga de Mãe”.
Toda mãe sempre roga a mesma praga para o filho(a):
“No dia em que você tiver seus filhos, vai dar valor a tudo isso que faço, e vai saber na pele o que eu passo com você!”
Sério pessoal, eu até então me achava o pai mais legal do mundo, mas o choque da realidade minou minha opinião.
Contanto que todo meu zelo e chatisse funcionem pra minha filha, como o zelo e a chatice dos meus pais funcionaram para mim, estarei feliz.
Acho que agora sou mesmo é um pai clichê, sou o pai mais legal do mundo, mas só às vezes!

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Gill Nascimento

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14 Comentários

  1. Nem penso em ser pai, mas com certeza meus gostos moldaram a minha forma de criar meus filhos. Não sei se tenho pena deles ou não, só espero que meu parceiro seja bem diferente de mim, senão os bichinhos vão sofrer com minha mania de organização.

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  2. Eu parei pra pensar como quando somos crianças somos ingratos.
    Normalmente mãe é sempre a mais chatinha, mas pensando bem ela pode ser chata , proibir algumas coisas, nos obriga á fazer outras, mas tanto ela quanto os nossos pais só querem o nosso bem.
    Não tenho filhos ainda, mas sei que quando eu tiver vou ser uma mãe bem carrasca rs
    Pela vida que eu tive até hoje e por todos os perrengues, se eu tivesse uma mãe diferente,mesmo que ela faça parte de tudo isso não sei como estaria hoje.

    Arrasou no post!!!
    Um Beijo

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  3. “Só não denuncio meus pais, porque eu amo muito eles”
    kkkk Quem nunca?

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  4. Espero realmente que meus filhos me enxerguem de uma forma mais leve. Bjs

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  5. Gill eu não sei o que é ser pai, mas se fosse seria semelhante a você! rsrsrs foi um ótimo texto!

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  6. Jorge Philipe

     /  4 de julho de 2016

    Belo texto. Suas palavras são aquelas de tocar a alma! Parabéns! 😉🕊

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