Papo de Bar… Exaltando o normal!

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Vivemos numa época muito estranha, onde as pessoas e a mídia exaltam demais ações que deveriam ser tratadas como normais, fazendo parecer que o jeito errado e as coisas mal feitas são o modo normal, e pra mim isso é preocupante, e também para a galera que estava comigo nesse Papo de Bar.
Esse nosso Papo foi inspirado num capítulo do livro “Número Zero” do Umberto Eco, um livro maravilhoso que eu super indico, uma maravilhosa leitura que vai fazer vocês terem uma boa noção de como são os bastidores dos jornais e revistas impressas.
Esse Papo de Bar aconteceu no Dellepiane Bar em Buenos Aires, durante uma viagem de trabalho, já faz um tempinho que deixei esse texto pronto, espero que curtam.
Pra quem se pergunta em que sentido me refiro quando digo “exaltar o que deveria ser tratado por normal”, na verdade é bem simples.
Eu mesmo me coloco como exemplo nesse caso, tenho uma equipe de mais de 10 pessoas que trabalham comigo, e dificilmente digo algo como “bom trabalho” para eles ou para alguém individualmente, a não ser que tenha realmente sido feito de maneira excepcional.
E não é o caso de ser um cara rigoroso demais (apesar de eu ser, às vezes), ou ser um chefe ruim (o que acho que realmente não sou), é pelo simples fato de que o excepcional é mais raro, e que talvez os parabéns e, às vezes (bem às vezes mesmo) uma bonificação incentiva a busca por ele.
É como um colega disse (ao menos eu acho que disse, pois meu espanhol anda meio enferrujado):
“Se toda vez que alguém faz seu trabalho da maneira que deveria ser feito, e ainda recebe por isso, nós os parabenizamos dizendo que foi um bom trabalho, dá a impressão de que o serviço mal feito é normal, e até aceitável, quando na verdade não. O mínimo aceitável deveria ser o serviço bem feito, aquilo abaixo da média deveria ser criticado e reclamado, e as exaltações surgiriam quando fôssemos surpreendidos por um trabalho muito melhor do que esperávamos.”
Simples e objetivo.
Uma colega pensou ainda mais além:
“As parabenizações viciam. É como a pessoa que nunca fez uma boa ação na vida, que então faz e percebe o gosto por sentir a gratidão das pessoas pelo seu gesto, e então nunca mais pára. Ou como a pessoa que nunca fez exercícios físicos na vida por pura preguiça, e que acaba descobrindo o gosto pelos resultados alcançados.
Algumas pessoas (e essas são as melhores) só se satisfazem com o reconhecimento, por isso ele deve ser dado apenas quando realmente merecido.”
Achei muito válido esse ponto de vista, e sempre pensei parecido, justamente por ser um viciado em reconhecimento.
O pior é tornar o ato de se superar em algo normal, já que o que é normal acaba roubando a cena. Com tantos “parabéns” e “bom trabalho”, quando realmente merecido nem se sente o gosto. Pode parecer um papo banal, mas quando se necessita dos resultados de outras pessoas para completar o seu próprio, isso é mais que útil, é quase psicólogico.
E tem o fato de que faz parecer que as coisas mal feitas são normais. No momento que parabenizamos o normal, tecnicamente promovemos o inferior para o seu lugar, e em alguns casos (pessoas que não se importam em fazer o seu melhor) incentivamos, praticamente, a fazerem um trabalho meia boca.
Já trabalhei em lugares onde existiam aqueles famosos quadros de “Funcionário do mês”, e sempre vi colegas reclamarem e acharem ruim promover tal divulgação, ainda mais se não existia nenhum prêmio por isso, e em todas as ocasiões, os que reclamavam eram sempre os que faziam seus trabalhos da maneira mais fácil e rápida para eles mesmos, facilitavam sua própria vida e nada mais, nada de se superar ou esperar elogios.
Não querendo me estender mais no assunto, até porque o básico da ideia foi passado, deixo a pergunta para vocês leitores, que com certeza trabalham, muitos devem ter subordinados, mas que com certeza contratam serviços com certa regularidade: Vocês concordam com o que dissemos nesse Papo de Bar?

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Gill Nascimento

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16 Comentários

  1. Perfeitamente! Depois da leitura do texto, também vou cuidar um tanto mais com essa minha necessidade de elogiar o tempo todo…

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  2. Olá, ainda bem que voltou!!! Mas então Gill, eu acredito que deve haver um equilíbrio. Existe o tipo de pessoa que se motiva a fazer algo melhor quando só recebe críticas e até ofensas, isso vira combustível pra ela. Só que também existe o tipo que eu sou, que é motivado de maneira positiva a fazer algo melhor, já por questões de autoestima mesmo. Um elogio singelo com uma cutucadinha pra direção certa pode fazer milagres, algo como: “Olha, está bom, mas sei que você pode fazer melhor. Dê mais uma pesquisada, fale com outras essoas e tente reescrever isso”, por exemplo. Se algum superior chega com 10 pedras na mão comigo, esqueça. Entro numa bad horrível e pra sair… nem cerveja na causa! FSDJFIOSDHFISDH

    Beijo!

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    • Aliás, gostaria de saber se tudo bem se eu mencionar seu texto para fazer um que talvez mostre a coisa de um outro ângulo pra você!

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    • Obrigado Mel 😍
      Sim, claro que existem exceções Mel, cada caso é um caso, a gente deve conhecer a mão de obra a qual estamos tentando ajudar, mas estou me referindo mais a questão de liderança mesmo, tipo, você não vai dar uma crítica construtiva ao encanador pelo qual pagou pelo serviço e que resolveu seu problema com eficiência, mas dá maneira mínima aceitável, você vai pagar, agradecer educadamente e pronto (risos) , mas entendi seu ponto, claro, tenho colegas assim, aí já são casos diferentes, é o caso de se conhecer a mão de obra que tem às mãos, a crítica construtiva usamos em duas ocasiões Mel: Quando a pessoa faz um serviço mal feito, mas tem q capacidade de melhorar, e quando a pessoa faz algo razoavelmente bom, mas está longe de ser todo seu potencial… A exaltação do normal já é diferente, é um erro, não há crítica construtiva, é a promoção não merecida do mínimo aceitável… Mas como disse, entendi seu ponto, e vou adorar ler o texto 😉
      Tenha um dia lindo e uma ótima semana!!!
      Beijos!!!

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  3. Esses dias faltou internet aqui (AHHHHH) e dai o cara da assistência demorou 4 dias para vir consertar, mesmo eu ligando todos os dias e eles dizendo que o chamado já havia sido encaminhado.
    Daí ele veio, resolveu o problema e eu soltei um “MUITO OBRIGADO MESMO!”
    Com esse texto, agora, me pergunto, meu agradecimento precisava ter sido tão expressivo? Ele não tinha feito “apenas” o seu trabalho e, ainda por cima, depois de um tempão?

    Levando para outro lado, também já parei para pensar sobre como a gente normaliza os acontecimentos ruins dos noticiários. Um caso de homofobia é apenas mais um gay sofrendo por ser gay; uma mulher morta pelo companheiro é uma pena, só mais uma vítima do machismo extremo.
    Também não vou me estender, mas acho isso tudo muito perturbador para a nossa percepção do nosso futuro e de como ele, através desses nossos pequenos pensamentos confortáveis, vai se transformando em algo assustador.

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    • Exatamente, você citou exemplos maravilhosos, além de exaltar o normal, normalizamos o ruim, fazendo com que apenas catástrofes abram nossos olhos, e que as excelências não sejam mais almejadas, fica difícil isso!
      Tenha um ótimo dia e uma ótima semana!
      Abraço, amigo!

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  4. Quanto tempo, saudades dos seus textos..Eu sou o contrario sou de parabenizar as pessoas que trabalham para min e gosto que meus chefes me parabeniza quando faço algo bom, mas agora lendo seu texto acho que vou fazer isso menos porque só estão fazendo o trabalho e nada excepcional..Bom para refletir..Bjuss Gil
    http://www.petitluxo.com

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  5. Quando acostumamos a fazer as coisas como de qualquer jeito, foi implica em uma nova repetição pelo fato de não terem referência do que é fazer com excelência tal ação, e provavelmente nunca busca saber como faze-lo. É notório observamos isso em uma sociedade que dá “jeitinho” em tudo.

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    • Esse maldito jeitinho, a pior coisa que fizeram foi torná-lo algo popular, quase que um bordão nacional!
      Tenha um ótimo dia, brother!
      Abraço!!!

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      • Obrigado! tenho acompanhado seus texto e modo de chamar atenção para temas que não vemos na mídia. Continue provocando a discussão saudável como um novo jeitinho brasileiro de ser.

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        • Gosto de criar esses bate papos numa mesa de bar, meus amigos e colegas já aderiram e muitas vezes eles mesmo sugerem ótimos temas, é de longe a categoria que mais gosto aqui no Blog, fico feliz que esteja curtindo!
          Uma ótima noite, Marcos… Abraço!!!

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  6. Muito bom !

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  7. Me identifiquei muito! Necessito de reconhecimento e tenho mania de elogiar muito, isso me fez refletir… Obrigada Gil!

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