Dando uma péssima notícia…

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Existe aqueles momentos em nossa vida, em que parece ter alguém movendo alguns pauzinhos para que tudo fique mais difícil do que já é, fazendo parecer que a facilidade e a simplicidade são coisa muito difíceis de se obter.
Sabe, aqueles momentos em que você ergue as duas mãos ao céu e grita “Por que comigo, Deus?”, esperando ouvir uma resposta? Ao menos um “Porque você é trouxa, trouxa!”.
Comigo aconteceu uma situação, um tempo atrás, em que me vi obrigado a questionar o Divino, mas também não obtive resposta, nem mesmo a confirmação do que já sei, (bem lá no fundo), de que sou um trouxa (e azarado).
Fui incumbido pelo meu patrão, de dar uma notícia não muito boa (isso é puro eufemismo, a noticia era péssima mesmo) para o dono de uma pequena empresa de produções, que vem sendo há anos parceira nossa em vários trabalhos, de que iríamos devido a cortes no orçamento, parar de trabalhar com freelancers.
O problema nem era dar a notícia em si, mesmo a nossa parceria sendo 50% da receita da empresa dele, mas achar a oportunidade de dar a notícia.
Na verdade é até insensibilidade da minha parte dizer que eu sou o azarado nessa história, porque ele, nesse caso, foi muito, mas muito mais mesmo.
Ele estava com uma equipe de cinco funcionários me ajudando naquele que viria a ser (espero que não) o último trabalho dessa longa parceria, em Brasília, quando soube da notícia que eu teria que dar.
Eu sou o tipo de pessoa que segue a simples filosofia do “melhor que seja agora”, se tenho uma notícia ruim para dar, eu vou lá e falo de uma vez, mas até mesmo a minha falta de tato, às vezes, possui um pouquinho de tato (se é que isso é possível, ou compreensível).
Então chamei ele para dar a notícia, e logo de início percebi que ele não estava com uma cara muito boa, então perguntei se algo tinha acontecido, no que ele me respondeu que tinha acabado de falar com a esposa, e que ela tinha dado a notícia de que a mãe dela foi diagnosticada com um câncer em fase 3, e sim, ao contrário do que os comediantes do mundo todo dizem, ele estava sofrendo muito pela sogra estar doente.
Como eu teria coragem de piorar ainda mais a situação?
Então esperei uns dias para poder contar, aproveitando o tempo que tínhamos até o término do trabalho em Brasília, mas de novo não dei sorte.
No dia em que escolhi para lhe dar a notícia, novamente ele estava com uma cara péssima, e novamente fiz a bobagem de perguntar se tinha acontecido algo, antes de falar o que tinha pra falar. Nisso soube por ele que, um pequeno carreto que continha mais de R$30 mil em equipamentos da sua empresa, tinha sido roubado em São Paulo. Como já passei por isso é sei como é trabalhoso duelar com a empresa de seguro para tentar reaver ao menos parte do valor perdido nos materiais de trabalho, não tive coragem de lhe causar mais transtorno naquele momento, e mais uma vez adiei a conversa.
Passado alguns dias, que imaginei mais que suficientes para uma recuperação psicológica, tentei mais uma vez conversar com ele, e mais uma vez não consegui.
Dessa vez estava ainda mais abatido que das duas últimas, ele tinha recebido da esposa a notícia de que sua filha tinha assumido sua homossexualidade, e acontece que ele é um evangélico fervoroso que segue a doutrina de que o homem foi feito para a mulher, e a mulher para o homem, qualquer variante está completamente e muito errada.
Eu não tenho nada contra o homossexualismo, mas também não tenho nada contra a religião dele, então tive mais uma vez um grande impasse, e mais uma vez me vi obrigado prorrogar essa conversa.
Estávamos na Argentina quando resolvi tentar mais uma vez.
Imagino que estejam aí pensando “Só falta o Gill dizer que mais uma vez seu colega não estava com uma cara muito feliz”, e acertaram, realmente ele não estava, mas dessa vez não perguntei se tinha acontecido alguma coisa, sem dar chances também pra que ele me contasse sem eu ter perguntado, simplesmente lhe dei a má notícia, sem rodeios, apenas falei.
Me senti mal, porque naquele dia soube por um de seus funcionários, que ele tinha recebido a notícia de que sua filha tinha saído de casa para morar com a namorada, e de que o câncer da sogra não tinha chances de cura, apenas um prolongamento que seria penoso devido as quimioterapias.
Do jeito que as coisas iam, eu provavelmente não teria dado a notícia ainda, mas ainda bem que falei, estava sendo torturado enquanto guardava apenas pra mim, e depois pensando melhor sobre a situação, vi que de um certo ponto, agi errado. Deveria ter dado a notícia ruim logo de início, pra se curar de todas ao mesmo tempo, talvez fosse um processo mais rápido do que foi, nada pior que várias notícias ruins dadas a prestação.
O que é pior, dar uma notícia ruim quando a vida já está uma merda e psicologicamente já estamos preparados, ou quando ela está boa e a notícia ruim vai estragar tudo?
Eu particularmente prefiro a primeira opção.

_

Gill Nascimento

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14 Comentários

  1. Acho que nunca realmente saberemos quando vai ser o momento certo!!! Abraços

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  2. Nossa, que fase!
    Espero que seu colega supere estes problemas…
    Que tudo de certo… vc fez o que era preciso rs
    bjs

    Curtido por 2 pessoas

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  3. Gil, What happened to your morning smile? Cheers,hope you are doing fine.

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  4. Bacana o texto. Notícias ruins temos a todos os momentos, precisamos ter maturidade para absorvê-las e não problematizar demais.
    Abraços
    Adorei seu blog

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  5. Cômico se não fosse trágico Gil! As vezes pensamos a estamos na merda, mas tem gente q supera a gente. Espero q o rapaz possa e uma certa forma recuperar o fôlego de tantos problemas e decepções que ele passou e tem passado.

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  6. Não é fácil, não :/

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  7. Problemas, todos temos. Resolvê-los é que é preciso.Em alguns casos devemos resolver o nosso jeito de lidar com eles para então ver que não são tão grandes assim.
    Beijos.

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