O dia mais louco que eu vivi…

Existe uma pergunta que eu sempre fazia para os meus amigos, assim que voltei de Minas Gerais:
“Vocês conseguem imaginar como é uma eleição municipal numa cidadezinha de interior com 17 mil habitantes?”
Eles até que tentavam imaginar, mas nunca chegavam nem perto, a maneira mais simples e curta de tentar explicar algo desse nível, era dizendo ser uma simples e completa loucura, o que na verdade resumia muito bem, mas como era eu dizendo, sempre completava com muitas histórias, para pintar nas mentes sedentas por micos e comédias, uma singela noção da realidade de tamanho evento.
E uma em particular eu sempre gostava de contar, mas como disse ontem, só fazia na presença da minha querida mamãe, que também presenciou tudo, e podia confirmar a veracidade da história, porque confesso, se fosse eu o ouvinte, ou leitor, dificilmente acreditaria, de tão absurda que parece ser.
Mas vamos a história…
Nessa cidadezinha, havia o até então atual prefeito e candidato a reeleição, e quando as campanhas começaram, assim como nas eleições municipais anteriores, só houve um adversário, o que me deixou entusiasmado desde o início, pensando em como isso poderia ser, e fiquei muito feliz ao perceber que nem cheguei perto de imaginar a loucura que seria aquelas eleições.
Quando contava para os meus amigos de São Paulo, eles achavam ridículos alguns detalhes das histórias, como algumas manias do povo, por exemplo, e confesso, eu no começo também achava a mesma coisa, mas isso não durava muito, logo eu adotava as mesmas manias e achava demais.
Um bom exemplo eram os apelidos dos eleitores. Por serem dois candidatos a prefeito, então os partidos se uniam e formavam duas chapas, e devido isso a cidade se dividia em duas também, de um lado os Torranos, eleitores do atual prefeito na época, que era um grande fazendeiro de café, daí o apelido, e do outro lado os Pokanos, que eram eleitores do outro candidato, que por acaso era meu primo, e hoje é o prefeito da cidade, ele é um fazendeiro de cítricos, onde o produto principal eram as mexericas pokan, o que também rendeu o apelido dos seus eleitores.
E não é exagero de minha parte dizer que a cidade se dividia em duas, acreditem, casais se separavam por apoaiarem candidatos diferentes, filhos e filhas eram expulsos de casa por não apoiarem a mesma coligação que os pais, e brigas aconteciam com muita frequência nos bares e nas ruas, até mesmo nas escolas as crianças brigavam, sem nem mesmo terem idade eleitoral.
A loucura era tão grande, que fizeram escalas para as campanhas dos candidatos, um dia de campanha de um, e no outro dia do outro, no dia de campanha de uma coligação, os candidatos da chapa adversária não podiam se promover, nem mesmo abrir as portas de seus comitês.
No meio de toda essa bagunça eleitoral, havia mais uma família dividida, uma das mais ricas da cidade, e o caçula da família, que por acaso era um bom amigo meu, e muito, mas muito desajustado mesmo das ideias, era um Pokano, enquanto a magnata da sua família, sua avó, era uma Torrano fervorosa. E aconteceu de ela oferecer sua linda fazenda para que o prefeito da cidade promovesse um showmício e um almoço para seus eleitores, e quem sabe conquistar mais alguns.
A verdade é que mudando ou não de lado, num evento desse porte, onde tinha comida, churrasco e bebida a vontade e de graça, a cidade inteira, praticamente, marcava presença, inclusive eu, que não havia mencionado ainda, mas era Pokano roxo, não pelo fato do candidato ser meu primo, mas sim porque mexerica é minha fruta predileta, e também porque ele me pagou R$500 na época, só pra eu transferir meu título para lá.
E enquanto toda cidade esperava pelo dia de se fartar e encher a cara a custa do prefeito, meu amigo perturbado estava tramando um plano, que virou a cidade inteira de cabeça para baixo.
No dia anterior a festa, ele vizitou de madrugada, e sem que ninguém soubesse, a fazenda da sua avó, e trocou os potes de sal, que seriam usado para temperar toda a comida do evento, por potes de sal misturado com uréia, usada nas folhagens das plantações de café para espantar e matar os insetos. As cozinheiras nem notaram a diferença na hora de fazer a comida, devido a semelhança dos dois produtos.
A festa correu normalmente e bem demais, até acima das expectativas. Mas foi a noite, por volta das 22 horas, quando todos já estavam em suas casas, alguns ainda bêbados, que literalmente a merda foi jogada no ventilador.
Eu dei a extrema sorte de não comer nada na festa, pois almocei na casa de um tio meu, com quem havia pescado no dia anterior, e não quis perder o saboroso fruto de nossa pescaria, cozido pela minha tia que tem um talento incrível na cozinha.
Mas quem comeu se deu muito, mas muito mal mesmo.
Quando chegou um certo ponto da noite, eu já havia me deitado para dormir, pois tinha exagerado um pouco na cerveja, começo a ouvir os gritos da vizinha da direita e da sua neta, e não muito depois, começou também os gritos do casal de vizinhos da esquerda, e da suas filhas.
Longos e angustiantes gritos de pessoas que precisavam usar o banheiro, e que não aguentariam esperar muito tempo. Isso mesmo, o efeito causado pela uréia foi soltar violentamente o intestino de todo mundo que comeu, praticamente 90% da cidade.
Eu bêbado, mesmo com os gritos, consegui dormir, mas no outro dia foi uma loucura, por onde eu passava eu ouvia relatos das pessoas, dizendo ter passado a noite inteira no banheiro, muitos diziam estar até com assaduras, e a situação era tão comum entre todos, que eles nem sentiam mais vergonha de falar, muitos admitiam não ter conseguido chegar a tempo no banheiro.
E acreditem se quiser, a cidadezinha até estava cheirando um pouco mal, de verdade. Uma mulher na minha rua levou restos da comida para dar aos porcos em seu sítio, e dois deles morreram.
Ouvi histórias de que uma mulher grávida teve um aborto instantâneo devido isso, mas esse fato não posso atestar, pois até sair de lá ainda não havia conseguido saber se era verdade.
Mas o mais absurdo de tudo foi o que aconteceu no hospital da cidade, e isso eu garanto por ter sido vizinho de uma enfermeira do hospital, e morar em frente ao clinico geral. No final da noite, início da madrugada, o hospital lotou, e o problema, como imaginam, não era a quantidade, mas sim o fato de todos terem o mesmo problema, e como esse problema estava tornando o ambiente do hospital insuportável e o ar irrespirável, o que fez os funcionários do hospital chegarem ao ponto de sair arrecadando dinheiro entre eles mesmos e os pacientes, e tendo feito isso, ligaram para um morador da cidade que tinha um caminhão com o qual fazia carretos, contrataram seus serviços, e pediram para que ele levasse todos os pacientes para cagar no mato.
Meu amigo? Bem, depois disso e até eu voltar para São Paulo, ele ficou desaparecido, pois recebeu muitas ameaças, mas fiquei sabendo que tudo se resolveu e ele voltou um tempo depois.
Já a cidade voltou ao normal, com toda sua loucura eleitoral, dois ou três dias depois, o cheiro demorou uns quatro.

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Quando contei essa história no Grupo de Blogueiros e Blogueiras do Whatsapp, pedi que minha mãe mandasse um áudio confirmando se era verdade ou não…
Beijos especiais pras lindas Flávia e Mayara do Blog Coelho da Lua, Juliana do Blog Fabulônica,  Natália do Blog Only Secret Dreams,  Sílvia do Blog Reflexões e Angústias, Letícia do Blog Os Benefícios de Beber Café, Laynne do Blog Meu Espaço Literário, e o amigo Palhão do Blog do Palhão, que já ouviram essa história, e me incentivaram na época a contar aqui. Espero que vocês tenham gostado.
Abraços!

 

 

 

Gill Nascimento

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15 Comentários

  1. Nossa, parece que estava assistindo aquelas novelas de época…rsrsrs… Bjs Gil!!

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  2. kkkkkkkkkkkkkkk que história engraçada é essa? E essa loucura eleitoral eu conheço de perto, pois sou de uma cidade do interior da Bahia e acontece desse jeito mesmo.

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  3. Barbara Reccanello

     /  4 de agosto de 2016

    Mas que loucura mesmo! De qualquer forma, não duvido! Essas cidadezinhas mineiras tem de tudo! Mas entao descobriram que foi seu amigo mesmo?

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  4. Acredite Gill, acontece a mesma coisa na minha cidade, também pequenina, na Itália. Loucura, não é 😊? Ciao!

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  5. Esse seu texto me fez lembrar aquela história que você contou uma vez no grupo do amigo secreto. Eu ri demais aquele dia. Interior tem suas histórias.
    Beijos Gillzinho 🙂

    Ps: Estou esperando a minha história, até porque você não tem como fugir mais, sua carinha já está lá no projeto e o povo está aguardando eheehe bjos

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    • É exatamente aquela história Ju kkkkkkkk
      E sobre a minha participação, logo estarei preparando algo, meio que estou correndo contra o tempo no trabalho agora, está bem complicado , mas darei um jeito linda … 😘😘😘

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  6. kkkkkk… genteeeee.. muuita loucura.. estou morrendo d rir!! o seu primo foi mto sacana!! e a levar o povo pra ir no mato é mto coisa d cidade pequena!! hahaha
    vim aqui só pra ler a tal história..!!!
    bom fim de semana!
    Cris

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