A verdade sobre viajar à trabalho…

Engraçado como toda as vezes que menciono que estou viajando a trabalho, as pessoas comentam que deve ser legal conhecer vários lugares, e aproveitar os locais nas horas de folga, e outras coisas desse tipo, mas quem acha correto usar as palavras trabalho e legal na mesma sentença?
Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a frase “Faça o que você ama e não trabalhe sequer um dia em sua vida!”, acho completamente errada, o certo seria “Trabalhe com o que você ama, e logo odiará isso!”, tenho certeza que se eu tivesse me formado em turismo, hoje em dia odiaria viajar, até mesmo de férias.
Viajar a trabalho só serve pra nos fazer sentir falta de tudo na sua casa, até mesmo aquilo que você odeia.
Por exemplo…
Vizinhos são seres difíceis de se lidar, mas nesse exato momento estou sentindo falta dos meus, até mesmo dos antigos vizinhos de quando morava no condomínio, uma lésbica barulhenta em baixo, um casal de velhos tarados na frente e minha ex síndica ranzinza e argentina que morava no apartamento de cima.
Devo tudo isso ao fato de ter passado os últimos dois meses em hotéis, toda semana são vizinhos diferentes, algumas vezes todas as noites, e cada um com uma peculiaridade única, dormir é sempre um desafio, porque é praticamente inevitável não tentar adivinhar o que são os sons no quarto ao lado.
Sabe quando você era criança, e ficava vendo coisas nas sombras formadas no chão do quarto, à noite, pela luz da lua que entrava pela janela?
Ficar tentando imaginar o que está acontecendo no quarto ao lado, por causa dos sons, causa as mesmas paranóias, só que numa versão adulta.
Um dia desses quase liguei pra recepção pensando que tinha um cara matando a esposa ou namorada no quarto ao lado, mas quando peguei o telefone o som cessou, então dormi, afinal, de nada adiantava se ela já estivesse morta mesmo, mas no outro dia descobri que meu vizinho de quarto era um idoso de 69 anos, e que estava hospedado sozinho. O que aquele senhorzinho estava fazendo, só Deus sabe.
Outro dia tive que bater na parede para ver se incentivava a mulher  do quarto ao lado a gemer um pouco mais baixo, e de manhã ao sair para tomar café, encontrei a pessoa hospedada nesse quarto, por acaso um rapaz de uns 16 anos que estava lá com os pais, que o deixaram ficar num quarto sozinho. Fiquei com pena dos pais, que devem ter pago uma fortuna pelos pornôs comprado pelo garoto na TV a cabo, pois foram quatro noites assim.
Também tive um casal de vizinhos que tinham um filho ainda bebê, que não dormia por nada, queria brincar a noite inteira, precisei de um tempo para entender o que estava acontecendo, pois quem chorava era a mãe, e não a criança.
Teve também uma noite em que acho que o quarto ao lado estava assombrado, pois parecia que tinha alguém praticando sapateado lá dentro, mas quando liguei na recepção para reclamar, o porteiro noturno disse que o quarto naquela noite estava vazio, e ainda subiu para confirmar. Depois que ele saiu o som parou, e aí que eu não dormi mesmo, pois se não estava mais no quarto ao lado, poderia estar no meu. Nunca se sabe.
Outra vez foi um cara que passou umas duas horas na noite fazendo elogios como “gostosa”, “delícia”, “tentação”, e eu pensei “Caramba, a mulher desse cara deve ser fenomenal!”, mas logo de manhã, quando saía, vi o serviço de quarto precisar de dois carrinhos para tirar os pratos do banquete da noite anterior, enquanto um cara de uns duzentos quilos dava 20 dólares de gorjeta, e tudo de repente fez sentido.
E sabe o que é pior nisso tudo?
A pior parte é que tenho certeza, ao menos quase, de que quem está ficando com fama de chato sou eu, que preciso reclamar no mínimo duas vezes por semana com a portaria, e acordando com um baita mal humor quase todas as manhãs, por nao dormir direito.
Aprendi a valorizar meus vizinhos com tudo isso, acreditem, porque o barulho quando se torna costumeiro, até deixa de incomodar, mas quando todo dia ele é diferente, se torna uma longa e penosa tortura, e sinceramente, não desejo isso pra ninguém, ao não ser para esses próprios hóspedes chatos e barulhentos que tornaram a minha vida mais difícil do que já é.
Então não, viajar a trabalho, na maioria das vezes, não é nem um pouco legal.
E para completar, a única profissão que faria o dito popular “Faça o que você ama e não trabalhe sequer um dia em sua vida!” fazer sentido, seria testador de colchões, porque assim como goiabada, paçoca e coxinha, dormir também é puro amor!

 

 

 

Gill Nascimento

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16 Comentários

  1. Vou valorizar meus vizinhos, porque as modas de viola que ouço nos finais de semana eu até curto com uma gelada. Obrigado por abrir meus olhos, vou lá beber com eles e dizer que os amo.

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  2. Peço desculpas, mas tive que rir! rs. Abs.

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  3. Denise

     /  10 de agosto de 2016

    Ótimo texto!! A gente encontra cada vizinho de quarto de hotel….ótima semana!

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  4. Adoro seus textos, mas esse foi fenomenal! Me fez rir demais, obrigada mesmo 😂

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  5. Também não gosto de viajar a trabalho! kkkk

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  6. O desdobramento dos fatos é incrivelmente bem narrado. Todos são verídicos ou alguns surgem em devaneios? Eu achei deliciosa a leitura!

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  7. Desculpa, mas não tem como não rir de você kkkk

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