O que todos querem ouvir…

Quando Deus determinou que mentir seria um pecado, acho que ele não estava olhando à frente no futuro, quando as pessoas tornariam o cumprimento desse mandamento tão difícil, fazendo perguntas tão complicadas de se responder sinceramente.
Estava pensando sobre isso um dia desses, quando entrei no Facebook, coisa que raramente faço, e me deparei com uma foto de uma amiga no Feed, e a legenda era uma simples pergunta, “Estou bonita?”, e eu senti uma vontade imensa de responder com a verdade, algo do tipo “O sorriso está lindo, amiga, mas não posso dizer a mesma coisa do restante!”, e não é que ela seja feia, mas naquela foto, parecia que ela queria ser.
Eu adotei já há algum tempo a filosofia de evitar fazer perguntas as quais não quero saber, ou não tenho tempo pra ouvir a resposta, gostaria de dizer que funciona, mas estaria mentindo.
Desde então tenho adotado a filosofia de ser do outro time, dos que dão as respostas que não queremos ouvir, exceto quando podem ferir os sentimentos de alguém, diminuindo assim, e muito, a quantidade de mentiras contadas, e fazendo assim algumas pessoas pararem de fazer perguntas que me fazem ter a necessidade de mentir.
Um bom exemplo aconteceu no último fim de semana, quando voltei para casa para passar o dia dos pais com a minha filha, e acabei tendo que encarar um batalhão de parentes numa festinha familiar.
O fato de estar viajando a trabalho há tanto tempo, atiçou na minha família uma necessidade gigantesca de me bombardear com todos os tipos de perguntas, a maioria simples, mas grande parte eu não estava muito afim de responder, então coloquei minha nova filosofia em ação.
Comecei com a resposta para uma das mais simples e feitas perguntas que existe, a famosa “Como você está?”, naturalmente as pessoas perguntam isso apenas por cordialidade, e o máximo que querem ouvir é um “Tudo bem, e contigo?”, mas eu fui muito além.
Meu tio que já estava um pouco sem paciência por não ter bebidas alcoólicas na festa, pois também estávamos, além do dia dos pais, comemorando o aniversário de dezessete anos da minha irmã, me fez essa pergunta, e teve que me aturar durante quinze minutos, mais ou menos, falando tudo que estava se passando comigo, desde os menores problemas, aos maiores, desde os simples, aos mais constrangedores, e por várias vezes tentou me cortar para se desvencilhar e sair à francesa, evitando assim meu falatório, mas com muito jeitinho não deixei.
Fui evitado por ele durante todo o restante da festa, e pensei “Caramba, isso dá certo, e além de tudo é divertido!”.
Depois foi a vez da minha prima, que havia me apresentando seu novo namorado, e perguntou o que eu tinha achado dele, no que eu respondi: “Cara legal, parabéns, só é azarado!”.
Ele quis saber o que me fez chegar a conclusão de que ele seria um azarado, e eu respondi com toda sinceridade, “Você!”, e me virei e saí.
Vocês devem estar aí pensando sobre aquilo de não ferir os sentimentos das pessoas, mas nesse caso eu pude abrir uma excessão, já que minha prima é a mulher mais insensível que já conheci.
E continuei nesse ritmo durante toda a festa, e no final, quando todos já tinham ido embora, minha mãe se aproximou de mim e perguntou “Rapaz, que bicho te mordeu? Todo mundo estava comentando que você estava estranho!”, e eu respondi com toda a sinceridade do mundo, uma resposta que caberia bem melhor aqui nesse artigo, abordando esse mesmo tema, mas seria menos divertido, com certeza, e vocês não iriam ler até o fim, assim como minha mãe que não teve paciência de ouvir toda a resposta.
Então cheguei a conclusão de que as pessoas não querem a verdade se ela for dura e longa demais, querem ou preferem uma mentira simples e de preferência bem curta.
Então, só posso esperar que Deus esteja vendo isso, e me perdoe, porque o jeito será continuar mentindo.

 

 

 

Gill Nascimento

O desafiado

Romualdo era um homem normal, com uma vida normal, que gostava de coisas normais.
Ele era um homem que acordava cedo pra trabalhar, que recebia ligação da esposa pra comprar pão na volta do trabalho e que assistia futebol nos domingos à tarde.
Sua vida era simples e confortável, sem extravagâncias, mas também sem necessidades. Sua família era unida e sempre se apoiava, ele era feliz.
Romualdo só tinha um defeito, que pra muitos pode até não ser um defeito, até conhecerem os detalhes desse defeito. Romualdo não podia ser desafiado.
Parecia que em algum momento de sua infância, um hipnotizador muito bom o havia hipnotizado, dando a seguinte ordem: “Sempre que alguém te disser a palavra DUVIDO, você vai mover céu e inferno para provar que a pessoa estava enganada ao duvidar de você!”.
É certo que poderia vir muito a calhar num momento de fraqueza de fé, mas na maioria das vezes atrapalhava e muito.
Certa vez um colega de trabalho desavisado, soube que ele torcia para o time que seria adversário do seu no domingo, e o chamou para uma aposta, dizendo que duvidava que ele tivesse coragem de apostar 2 caixas de cerveja no próprio time. É claro que Romualdo topou na hora o desafio e apostou, acontece que seu time era o pior do campeonato, e não conseguia ganhar de ninguém ultimamente, já o time do seu colega era o líder isolado que vinha de 6 vitórias consecutivas.
Nem preciso dizer quem pagou as cervejas.
E antes que alguém pergunte, o time do Romualdo não era o Vasco.
Outra vez ele estava mexendo no Facebook, que por acaso ele só usava pra manter contato com parentes que moravam longe, e acabou topando com compartilhamento de um sobrinho adolescente. Uma foto de uma mulher de lingerie, e nos comentários os adolescentes desafiavam algumas amigas a tirarem fotos nuas e mandarem, as famosas NUDES, ele inocente comentou apenas que a moça da foto era bonita, ao que um amigo de seu sobrinho respondeu que duvidava ele mandar um nude também.
No outro dia o bairro inteiro olhava pra ele com aquela cara de acusação, “Olha lá, o depravado do Facebook”, “Olha lá o tarado que manda foto de si mesmo nu para adolescentes”, ele só saiu mesmo na rua porque tinha que trabalhar.
Outra vez, indo para o trabalho, se deparou com uma multidão na frente de um prédio, observando um homem que ameaçava se jogar do beiral do vigésimo andar. Ele se misturou a multidão para ver também, então comentou para quem quisesse ouvir, que alguém deveria subir e tirá-lo de lá, nisso outra pessoa disse que duvidava que ele tivesse coragem de fazer.
Alguns minutos depois Romualdo estava no beiral do vigésimo andar também, tentando convencer o homem a não pular e lutando contra o próprio medo de altura.
O homem acabou se jogando, mas em cima da hora pensou em desistir e tentou segurar na mão de Romualdo, mas o máximo que conseguiu foi levá-lo junto.
Não, ninguém morre nessa história.
Graças aos bombeiros que já haviam posicionado o colchão de ar, ambos se salvaram, mas como Romualdo chegou primeiro ao colchão, quando o suicida se chocou, jogou Romualdo de volta pra cima e pra fora do colchão de ar, alto o bastante pra ele se machucar bastante.
Romualdo além de não receber nenhum reconhecimento por tentar salvar o homem, ainda foi parar no hospital.
A verdade é que todo mundo odeia quando alguém dúvida da sua capacidade, quando alguém desafia sua coragem, mas todos tem o discernimento para reconhecer seus limites, ao contrário de Romualdo.
Eu poderia passar horas aqui contando as histórias de Romualdo, mas não acho certo, ele passou toda sua vida guardando essas histórias e o motivo delas em segredo, até que eu o conheci e o desafiei  a me contar.

Gill Nascimento