Castigo…

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Estou na cozinha, sentado à mesa, cotovelos apoiados na mesma, mãos cobrindo um rosto que contém olhos firmemente fechados, naquela esperança boba de que quando se abrirem, tudo estará diferente, e aquela situação torturante terá passado.
Penso comigo onde foi que errei, em qual momento entre o meu primeiro suspiro e o agora, eu cometi um pecado que mereça tamanho castigo. Muitos me vem à mente, mas nenhum parece tão grande assim.
De vez em quando me levanto e ando de um lado para o outro na sala, tentando juntar a coragem necessária para fazer o que é preciso, mas logo algo me diz que não tenho tanta coragem assim.
Num gesto automático do nervosismo, encho um copo de Whisky, e quando percebo, ele já está vazio e minha garganta queimando, mas toda a ansiedade e medo continuam firme e forte onde sempre estiveram.
Pego o telefone fixo, que geralmente só uso em casos de desespero mesmo, e tento ligar para a única pessoa capaz de me ajudar, me indicando uma solução, mas nem o celular e nem o telefone de casa são atendidos. Tento imaginar o que será de mim sem o auxílio e os conselhos da minha mãe, então percebo que estou realmente ferrado.
Enquanto isso ela está lá no andar de cima, me esperando, aguardando minha decisão, ansiosa por minha resposta, pronta para me julgar e me condenar.
Volto para a mesa da cozinha, volto para a minha posição reflexiva.
Começo a relembrar os conselhos do meu pai, e os avisos sobre as armadilhas de uma relação, chego a conclusão que deveria ter dado ouvidos, deveria ter prestado mais atenção, e acima de tudo, ter gravado e acreditado em cada palavra que ele me disse.
Se eu tivesse feito isso, talvez eu não estaria nessa situação agora.
Abro os olhos e vejo um copo meio cheio de Whisky (ou será meio vazio?) em cima da mesa, e tento me lembrar quando me levantei e o enchi novamente, mas não consigo, esse problema conseguiu a proeza de me absorver completamente.
Da mesa mesmo eu olho pela janela, lá fora está tudo tão quieto, apesar do dia bonito que está fazendo, então imagino que todos estão dentro de suas casas, acompanhando, enquanto roem suas unhas, todo o drama que estou vivendo. Chego a olhar em volta procurando as câmeras.
De repente uma nova tortura toma o ar: o som dos ponteiros do relógio antigo na sala. Apontando que ela não vai esperar muito mais tempo, logo virá lá de cima um grito nervoso me chamando, e então não terá mais volta.
O pior de tudo, o relógio também faz questão de me lembrar que eu já deveria ter saído a mais de 20 minutos, mas acabei me metendo nessa confusão.
Enfim a necessidade de sair, vence o medo de lidar com a situação, viro na boca o restante do Swing da Johnny Walker que estava no copo, respiro fundo, falo uns cinco palavrões, e então subo a escada.
No quarto ela nem precisou me ver, ao escutar meus passos já se virou na direção da porta, se posicionou firmemente preparada para me questionar, e aguardou que eu entrasse.
Eu entro, mas nem completamente, antes que ela fizesse a tão temida pergunta:
“Então amor, qual você acha melhor, o preto ou o vermelho?”
Respiro e digo o que meu coração me manda dizer:
“Acho os dois lindos, e adoraria escolher o que não fará com que você precise trocar os sapatos, os brincos e a maquiagem, afinal já deveríamos ter saído há meia hora. Que tal uma dica?”

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Gill Nascimento

Evoluindo

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Tem alguns assuntos que geralmente a gente não gosta de discutir não é mesmo?
Eu sempre tive os meus, alguns são clichês , tais como política, futebol e religião, o risco de discussão não vale o gasto de palavras e argumentos, prezo muito meu sossego, minha paz e minha tranquilidade mental pra isso, mas fora os clichês tem um assunto que nunca gostei muito de pensar, que é envelhecer.
Quando era criança temia me tornar adulto, ter que trabalhar, ter que me sustentar, ter responsabilidades e coisas do tipo. Então veio o primeiro emprego, e com ele tudo isso, mas também veio a liberdade, as festas, as mulheres, a diversão, e de repente meu medo passou a ser de deixar de ser jovem o bastante para essas coisas.
Hoje percebo como nossa visão muda conforme o tempo passa, não temo mais isso, apesar de ainda não estar velho o bastante para curtir a vida adoidado, ainda assim hoje curto muito mais o sossego do que a badalação.
Ontem estava conversando com uma amiga e entramos nesse assunto, ela disse estar ficando velha, e eu por outro lado disse que não, que ela estava ficando experiente, madura, se aprimorando e se tornando interessante e mais sábia conforme a vida lhe ensina suas lições, depois eu mesmo me surpreendi com minha resposta, em algum lugar no caminho que percorri até agora, deixei pra trás o cara que tinha medo de envelhecer, e me juntei a uma pessoa totalmente feliz com o fato de aprender a cada dia mais.
A verdade é que saber aprender a usufruir do que a vida nos dá no AGORA é uma verdadeira dádiva, e o primeiro passo para estar feliz consigo mesmo, o que convenhamos, não é uma coisa muito fácil de se conseguir.

Gill Nascimento

E aí, sobreviveram?

Fiz uma pergunta no fim da noite de ontem no Twitter que merece ser feita no início desse post:

E AÍ, SOBREVIVERAM?

Não lembro se fiquei off line no dia dos namorados em 2014, mas aposto que teve menos choradeira que ontem. Estava simplesmente insuportável ficar em redes sociais nessa sexta feira. Assim como as cagadas da presidenta alavancaram as ações da Tramontina devido os panelaços durante seus pronunciamentos, garanto pra vocês que o Presidente da SLC Alimentos, o Sr. Eduardo Logemann deve estar muito triste por se comemorar o dia dos namorados apenas uma vez por ano, pois a marca de arroz Namorado nunca tinha tido tanta publicidade gratuita antes, você atualizava sua time line e lá estava uma solteirona com um pacote de arroz nos braços dizendo que seu namorado tinha custado apenas R$8,99.
Ao contrário das mulheres notei que parecia que todos os homens estavam comprometidos ontem, pois os que choravam, faziam, mas não por estarem solteiros, mas sim pelo preço que pagaram pelos presentes. Mas claro que havia os solteiros que não podiam deixar de fazer suas piadinhas, é óbvio, não demorava muito pra se ver algum solteiro postando foto presenteando um dono de bar, comprando coolers personalizados para suas garrafas de cervejas e vinhos, abridores de garrafas novos e outros itens do tipo.
Eu não nego, fiz minhas piadas também, mas nada do tipo. Tenho uma piada pra essa época que repito todo ano e que sempre me rende um bom número de mulheres dizendo que sou um “fofo”; dizer que vai dar presente do dia dos namorados para a mãe, por que ela é a mulher mais linda do mundo e que seu pai é um cara de muita sorte, nunca falha.
Sobrevivemos não é mesmo? Não ao fato de passar o dia sozinho, mas sim ao fato de ter que ver as outras pessoas achando que isso era o fim do mundo.
Agora a piadinha mais revoltante era a de fazer placa dizendo que se aluga como namorada(o). A pessoa passou todo esse tempo sozinha, e agora quer arrumar alguém e ainda por cima lucrar com isso. Calma aí, se está sozinha é por que com certeza algum defeito o produto têm, não acham? Ninguém quis de graça, vão querer agora e ainda por cima pagar por isso? É um grande desperdício de esperança na minha singela opinião.
Mas acabou, hoje é sábado, quem chorou ontem chorou, quem não chorou, ótimo, pega o dinheiro que não gastou com presente e se presenteie, vá para um bar, tome umas ou dez, se possível me convide, e se bobear ainda arruma alguém no final da noite, por que a vida tem dessas coisas, dessas ironias.

Gill Nascimento

Não. Não. E não!

Olá pra você que só sabe dizer não para as Testemunhas de Jeová que tocam sua campainha, isso mesmo, por que em outros casos você só consegue estar indisponível quando não tem outra saída, ou seja, quando você está realmente ocupado(a)… Aonde quero chegar com esse papo maluco?
Simples…
Tenho percebido uma coisa, muitas pessoas ultimamente tem estado muito disponíveis, disponíveis demais mesmo, fazendo com que outras pessoas aproveitem desse fato. Na verdade eu era assim até pouco tempo atrás, não sabia dizer não para os amigos, não conseguia negar um favor a ninguém, e vivia emprestando minha atenção pra pessoas que surgiam com conversas que me faziam, depois, passar horas xingando palavrões por ter sido usado de muro das lamentações!
Estar indisponível é indispensável, como saberemos se somos necessários se nossa falta nunca for sentida?
O pior é deixar pessoas mal-acostumadas, pessoas que desaprendem a conviver sem a sua mão de obra, pessoas que são suas grandes amigas quando você está todo o tempo disponível, mas que ficarão com raiva de você no primeiro “não” que sair da sua boca, para elas. E no final você também fica mal-acostumado(a), pois muitas pessoas que são solícitas demais acabam desaprendendo cuidar da própria vida, pois passaram muito tempo ajudando os outros a cuidar de suas vidas.
Agora a moda é saber como dizer “não”, pois existem vários tipos de “não”, existe aquele que significa “não vou ajudar agora, não vou ajudar hoje, nem amanhã e nem nunca, por que isso não faz o meu estilo!”, e existe aquele “não” que significa “agora não posso, mas da próxima quem sabe, será um prazer!”, existe também aquele “não” que quer dizer “você ainda não acredita que possa ser uma pessoa chata não é mesmo?”, existe um tipo de não para cada ocasião, só é preciso conhecer o jeito certo de dizê-los, por que ao invés de passar a mensagem subliminar que queria, você pode acabar passando outra totalmente diferente.
É, até pra dizer um simples “não” tem tido regra ultimamente, por que pode acontecer de você dizer um não pra uma pessoa chata, e ao invés de entender “sai do meu pé, chulé”, a pessoa entender “hum, agora não, mas depois eu quero ver seu corpo nu!”, já pensou? Ao invés de consertar acaba piorando tudo de uma vez.
Eu tenho aprendido a usar o “não”, mas de maneira menos singela, o fato é que sou realista demais, não adoço a pílula pra ninguém, meu “não” já vem com a dose certa de verdade e sinceridade, e com legenda pra quem não entender.
Enquanto nós vamos aprendendo a ser menos disponíveis, bem que algumas pessoas poderiam ir aprendendo a serem menos dependentes dos outros! E fique esperto, se você percebeu que nem precisa aprender a dizer não com mais freqüência, pode ser que você seja uma das pessoas que precisam aprender a precisar menos de nós pessoas que não sabemos dizer não, melhor já ir treinando!

Gill Nascimento